Zeca Afonso: Um artista que deixou "sementes" para as gerações seguintes

O músico José Afonso, ou `Zeca`, morreu há 30 anos deixando mais de 70 registos, entre álbuns de estúdio, ao vivo, EP e `singles`, sendo considerado um "génio" da música portuguesa que deixou sementes nas gerações seguintes.

Lusa /

"Faz todo o sentido falar em herdeiros da música do Zeca Afonso. Acho que é mesmo impossível não falar, ao pensar na música portuguesa das últimas duas décadas e meia. Portanto, praticamente desde a morte dele", afirmou, em declarações à Lusa, o investigador João Carlos Callixto.

A opinião é partilhada pelo radialista Henrique Amaro, que há mais de 20 anos tem programas dedicados à música portuguesa: "Mal seria de nós se essa existência [de herdeiros da música de Zeca Afonso] fosse colocada em causa", disse, sublinhando que "se calhar não é uma coisa que esteja à frente dos olhos como era muito vincado quando se fez o `Filhos da Madrugada` [disco de homenagem editado em 1994], e havia os Resistência, os Xutos [& Pontapés], os Madredeus e os Sitiados".

Fazendo "um exercício de memória", Henrique Amaro lembra-se de três `herdeiros` da música de Zeca Afonso: "os desconhecidos Marvel Lima, os semi-desconhecidos Beautify Junkyards e o conhecido B Fachada, porque de todos é o que tem tido mais mediatismo e o que tem mais obra", ou seja, "um mais visível e dois insuspeitos".

O radialista considera "indissociável o trabalho do B Fachada do trabalho do Zeca Afonso". "Ouvindo eu noto, mas é o próprio a assumi-lo", afirmou.

B Fachada assume-me como "herdeiro" da música de Zeca Afonso, mas de forma parcial: "Só no sentido em que estudo e processo a música dele". "Ou seja, digamos que ser herdeiro é um esforço meu, não um defeito do Zeca!", afirmou em declarações à Lusa.

Para B Fachada, José Afonso foi "um grande músico", deixou "um património incontornável pelo seu valor musical, principalmente" e, 30 anos depois da sua morte, "continua relevante porque é relevante musicalmente antes da relevância histórica".

O músico considera que a obra de Zeca Afonso "é o modelo original para a leitura crítica da tradição, para a africanização da cultura portuguesa, para a canção como intervenção, para a oralidade da língua".

Dos Marvel Lima, Henrique Amaro destaca o vocalista, José Penacho, "que consegue colocar na mesma balança a devoção que tem por algum psicadelismo e pelo rock exibido pelo Santana no início dos anos 1970 com o Zeca Afonso", recordando que o músico "fez há pouco tempo uma versão" de "Que amor não me engana" de José Afonso.

José Penacho, em declarações à Lusa, reconheceu a influência de Zeca Afonso na música que faz, "não tanto em Marvel Lima, mas mais a solo".

"É um dos meus compositores preferidos. Adorei quando conheci [o trabalho dele], ouvi as primeiras músicas e senti-me ligado", partilhou.

O músico alentejano prefere não falar em "herdeiros", mas destaca que "qualquer músico português que conheça o `background` da música portuguesa acaba por ser influenciado pelo Zeca, é uma figura transversal".

À parte da importância política, Zeca Afonso "era um compositor incrível, tinha uma voz espetacular, era muito `sui generis`, um pilar da música portuguesa".

Também os Beautify Junkyards, de João Branco, recordou Henrique Amaro, "foram atrás no tempo e fizeram uma versão do Zeca Afonso".

O tema foi "Que amor não me engana", que, para o líder dos Beautify Junkyards, "foge à imagem padronizada de cantautor de intervenção".

João Branco admite a influência da música de Zeca Afonso, que é "mais marcante em alguns temas do segundo álbum" da banda.

"São influências muito subliminares. A música de Zeca Afonso trouxe portugalidade à nossa música, influenciada também pelo Tropicalismo, a folk inglesa ou a música eletrónica alemã", referiu.

A dada altura, os Beautify Junkyards decidiram "mergulhar na música do Zeca e de outras bandas da década de 1970, como a Banda do Casaco" para, desse modo, "estabelecer pontes com o passado, resgatar ligações e adaptar à estética musical da banda". "Adaptar aos nossos tempos", disse.

Para João Carlos Callixto, "é impossível pensar em Deolinda, Diabo na Cruz e Criatura sem pensar na obra do Zeca Afonso".

"São projetos que têm este espírito que o Zeca Afonso tinha de mistura de várias referências, de preocupação com as letras. De, a nível musical, não se fechar dentro de uma gavetinha", referiu.

Além disso, o investigador recorda haver fadistas hoje em dia a incluir Zeca Afonso nos seus repertórios, destacando a "pioneira" Dulce Pontes, "que tanto fez versões da Amália como do Zeca".

"O Zeca acabou por se transformar num nome que cruza públicos, cruza repertórios e que não se fecha de maneira nenhuma dentro do âmbito das ditas canções de intervenção ou dos repertórios dos cantautores", afirmou.

O investigador lembrou também que tem havido músicos do movimento `hip-hop` "a fazer novos temas com base em Zeca Afonso", considerando que o `rap` está "dentro do âmbito da dita canção de intervenção".

"Por isso é que se diz tantas vezes que estas novas gerações do hip-hop se reclamam um bocadinho do legado da canção de intervenção. Não quer dizer que para o hip-hop seja a única coisa que importa do trabalho do Zeca", disse.

Para João Carlos Callixto "essa também é a riqueza do Zeca Afonso, dar-se para tantos géneros musicais".

"É um dos maiores génios da música portuguesa do século XX, isso é indiscutível", defendeu. Acrescentando Henrique Amaro que Zeca Afonso "é sem dúvida o grande pilar disto tudo, o grande génio, o grande visionário, tudo".

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