O fascínio francês pelo período da ocupação nazi

A exposição “A Colaboração 1940-1945” reúne cerca de 300 documentos, expostos na sede dos Arquivos Nacionais de França, na zona de Marais, em Paris. O material é inédito e vem trazer novos dados sobre um período histórico que fascina cada vez mais a cultura francófona.

Andreia Martins, RTP /
A ocupação nazi iniciou-se oficialmente em junho de 1940, com a chegada de Hitler a Paris. D.R.

No imaginário comum da nação, os franceses são os filhos dos ideais de 1789 e os descendentes dos que resistiram à ocupação nazi. Mas nem sempre (e nem todos) os franceses se pautaram pela oposição aos regimes mais bárbaros que a História conheceu.
“Trabalho, Família e Pátria”
Denis Peschanski, historiador e comissário da exposição, diz que este período negro da história francesa não foi simplesmente “a França como uma mera sucursal alemã” mas também um sistema “totalmente francês, ligado às tradições locais de extrema-direita”.

Entre estes documentos, muitos chegam a público pela primeira vez, depois de décadas sob proteção e sigilo das autoridades. Agora revelados e expostos, permitem-nos repensar o período de ocupação nazi e a importância da ação do Governo francês sob jurisdição de Berlim.

Sob o lema “Trabalho, Família e Pátria”, Philippe Pétain traçou com Hitler um corredor estratégico entre as duas capitais a nível militar, económico, administrativo, mas também ideológico.

As profissões mais liberais estavam vedadas a qualquer judeu, como a de professor, artista ou médico, logo nos primeiros tempos da ocupação. A partir de 1942, os judeus foram obrigados identificar-se com um distintivo amarelo.

Nos últimos anos da ocupação, a França participou no extermínio que o III Reich perpetuava e deportou cerca de 75 mil pessoas para os campos de concentração.
Quatro anos

No ano em que se assinalam os 70 anos do fim da II Guerra Mundial, os documentos anteriormente confidenciais começam a ser revelados e a oferecer novas leituras a historiadores e ao público em geral.

A exposição começa com o documento da Assembleia Nacional francesa a outorgar poderes a Pétain e passa por novas imagens com altos dirigentes da França e da Alemanha em visitas de Estado e momentos de convívio - o encontro entre Otto Abetz e Pierre Laval, o histórico passeio de Hitler e do Maréchal Pétain à vista da torre Eiffel.
Em França, o prazo de confidencialidade de arquivos policiais é de 75 anos. Mais documentos deverão chegar a público entre 2015 e 2019.
O fim da ocupação marca inevitavelmente o fim da própria exposição: documentos de purgas políticas que perseguiram os colaboracionistas – pena de morte, exílio, prisão perpétua são as penas mais comuns então aplicadas.
Comunidade neutra
Peschanski não acredita na tese absoluta de nenhum dos lados. A França não foi unânime na aversão ao nazismo, mas  tão pouco foi totalmente submissa. A população maioritária foi, sobretudo, a neutra: “Houve quem se acomodasse às circunstâncias, mas não se identificava como colaboracionista. E depois houve os que foram capazes de dizer não, mas que não participavam abertamente em atos de resistência”. "Mais do que um trauma histórico, a ocupação constitui uma obsessão francesa. É um capítulo que define a nossa identidade enquanto povo.”

A cultura francófona tem dado sinais de querer explorar esta posição aparentemente ambígua e desconhecida da população francesa. Livros, investigações ou mera especulação da imprensa tentam desvendar os posicionamentos dúbios de ilustres personalidades como Maurice Chevalier, Edith Piaf ou Coco Chanel.

O diário espanhol El País dá atenção a uma série televisiva, Un Village Français, que tenta explorar o quotidiano da população anónima sob a França de Vichy: “Interessam-me os 95 por cento de cidadãos que não se identificam nem como resistentes, nem como colaboracionistas. Não eram monstruosos, mas também não eram heróis – eram simplesmente humanos”.

Na literatura, a curiosidade e o interesse ultrapassam as fronteiras. Patrick Modiano, o Nobel da Literatura em 2014, baseia o grosso da sua obra na melancolia e nostalgia de uma infância marcada pela França ocupada. Modiano foi laureado, precisamente, por “ desvendar a vida quotidiana durante a ocupação”.

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