480 pessoas despedidas em fábrica do Seixal
A fábrica de componentes automóveis Alcoa, no Seixal, encerrou hoje, colocando no desemprego cerca de 440 trabalhadores, na sua maioria mulheres, tendo trocado Portugal pela Hungria, depois de 40 anos sediada no País.
Um número de desempregados que poderá aumentar para 480, visto que, neste momento mantêm-se em funcionamento os departamentos de logística e pós-venda, que albergam ainda 40 empregados, uma situação que se poderá alterar nas próximas semanas.
A multinacional norte-americana produzia cablagens para automóveis, direccionadas posteriormente para a Autoeuropa, o único cliente em Portugal. De acordo com funcionários da Alcoa Fujikura, a fábrica chegou a produzir cerca de 500 cablagens por dia, um número que tem vindo a decrescer desde o anúncio de encerramento.
Segundo Rosário Silva, porta-voz da Comissão de Trabalhadores, a empresa terá sido recolocada na Hungria devido aos preços salariais mais baixos praticados no país, reduzindo em dois cêntimos o preço de cada cablagem produzida.
Rosário Silva congratulou-se com o desempenho da Comissão mas acusou o Sindicato das Indústrias Eléctricas do Sul e Ilhas de não ter colaborado em nada no processo de despedimento e indemnizações dos funcionários.
Uma situação que considerou "estranha", visto que a maioria dos empregados da fábrica eram sócios do Sindicato e "tinham as suas cotas em dia".
Uma opinião partilhada por outros funcionários. Marco Valente, empregado da Alcoa há nove anos, vai ainda mais longe e considerou ter sido "burlado" pelo Sindicato, acusando a entidade de "apenas querer dinheiro, não se preocupando com a situação dos funcionários".
Os 480 funcionários da empresa foram alvo de um despedimento colectivo, recebendo, cada um, cerca de dois meses de ordenado por cada ano de casa, além da Comissão de Trabalhadores ter conseguido acrescentar a esse valor um subsídio individual de 1000 euros.
No entanto, Rosário Silva referiu que as condições de despedimentos foram negociadas "caso a caso" e em conformidade com a situação profissional de cada trabalhador.
Além disso, cerca de 20 trabalhadores da fábrica portuguesa deslocaram-se para a Hungria, com ordenados superiores e despesas totalmente pagas, no sentido de dar formação aos novos funcionários da empresa.
Uma situação que a Comissão de Trabalhadores não comenta, revelando ter sido "uma opção de cada um, apesar dos que aceitaram saberem que esta é uma situação a prazo, com duração de meses".
Aliás, Rosário Silva referiu que também esses trabalhadores fazem parte da lista de funcionários alvo de despedimento colectivo.
A porta-voz da Comissão de Trabalhadores exerce funções na fábrica há 34 anos, tendo começado a trabalhar para a Alcoa Portugal com apenas 14 anos. Considera ter uma vida desafogada e sem problemas financeiros mas mostrou-se preocupada com a falta de actividade que o desemprego lhe vai trazer.
"Felizmente, não é o dinheiro que me vai fazer falta, pois tenho rendimentos externos ao meu ordenado e os meus filhos já têm a sua própria vida. A minha grande preocupação é por ter de deixar a vida activa e passar a depender do meu marido", desabafou.
Esta manhã, mais de 100 funcionários da empresa reuniu-se à porta da empresa, seguindo depois para um almoço, que ninguém quis considerar de despedida mas que serviu para relembrar os muitos anos passados na multinacional Alcoa Fujikura.
Irene Silva, empregada da fábrica há 20 anos, propôs a realização de encontros dos funcionários "duas ou três vezes por ano, para não esquecer o companheirismo entre todos". Para Irene, que já tem 46 anos, "o mais difícil passa por arranjar um novo emprego".
"Eu não tenho medo de trabalhar, posso fazer limpezas ou outra coisa qualquer, o problema é que ninguém me vai dar trabalho com esta idade e as contas para pagar continuam a ser as mesmas", revelou.
No entanto, fez questão de realçar que não é das que estão em piores condições. Tem um filho com 21 anos mas este emigrou há dois anos para Inglaterra, não tendo, por isso encargos com crianças jovens. Ao contrário de algumas funcionárias que ainda têm crianças e adolescentes "para criar".
O despedimento colectivo foi formalmente conhecido em Outubro, altura em que os funcionários se decidiram por uma paralisação total de três dias na produção da empresa. A retoma dos trabalhos só aconteceu depois dos trabalhadores terem sido informados das condições reais de despedimento.
Mas a empresa dava sinais de queda progressiva desde o Verão do ano passado. Aliás, há já várias semanas que, das três linhas de produção da fábrica, apenas uma continuou o seu trabalho, passando a produção de 500 para apenas 30 cablagens por dia.
A Comissão de Trabalhadores assumiu que esta situação "é muito complicada", pelo facto da maioria dos trabalhadores - cerca de 90 por cento - serem mulheres, em faixas etárias acima dos 40 anos e com mais de dez anos de trabalho nesta empresa.
O sentimento geral era de tristeza pela perda do único trabalho que muitos conheceram. Os trabalhadores assumiram-se como competentes e acusaram a administração de olhar apenas a critérios económicos para deslocalizar a fábrica.
Aliás, Paula de Garcia, de 40 anos, dos quais 11 foram dedicados à Alcoa, colocou em causa as competências da nova sede, dizendo que, neste momento, os trabalhadores da fábrica na Hungria, "não conseguem cumprir com as encomendas que têm para a Autoeuropa".
"Eles podem poupar nos funcionários mas vão gastar muito mais dinheiro em transporte, visto que a Autoeuropa é aqui a dois passos, e além disso, vão perder competência, porque na Hungria há certas cablagens que eles nem sequer conseguem fazer", desabafou.
A administração da empresa não esteve presente na fábrica hoje, não tendo sido, por isso, possível contactá-la para obter alguns esclarecimentos acerca deste caso de despedimento colectivo.