Acordo com a ‘troika’ entra na agenda da campanha

Ao final da tarde de ontem era revelada uma segunda versão do acordo entre Portugal e a 'troika'. A versão final foi assinada no Ecofin de 17 de maio e contempla alterações em relação ao primeiro documento. O Ministério das Finanças admite diferenças mas sublinha que são "aperfeiçoamentos de caráter técnico". Sócrates fala em acertos de datas, mas os partidos da Oposição exigem agora uma clarificação.

RTP /
O ministério de Teixeira dos Santos já admitiu que a versão que conta é afinal a de 17 de maio, mas aponta que se trata apenas de "aperfeiçoamentos de caráter técnico" Lusa

A revelação de que o Governo assinou a 3 de maio um documento com a ‘troika’ e duas semanas depois, na reunião de 17 de maio do Ecofin, firmaria em Bruxelas uma segunda versão definitiva diferente da primeira entrou ontem nas agendas da campanha para as legislativas, com duras críticas ao Executivo de José Sócrates.

Paulo Portas declarou que o CDS, apesar de não ter sido avisado, já tinha conhecimento dessas alterações, tendo enviado um requerimento ao Governo a pedir explicações. O presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, por seu lado, considera que desta vez o Governo foi longe de mais: “Afinal, havia um documento com o Fundo Monetário Internacional e havia outro com a União Europeia”.

O ministério de Teixeira dos Santos já admitiu que a versão que conta é afinal a de 17 de maio, mas aponta que se trata apenas de "aperfeiçoamentos de caráter técnico". Explica o ministério que o primeiro acordo teve o aval de PSD e CDS, sendo apenas uma "versão preliminar do Memorando de Entendimento sobre Condicionalidades de Política Económica da Comissão Europeia".

Ouvido pelas televisões, o primeiro-ministro José Sócrates justificou o segundo documento como contendo ajustes de datas em que são antecipadas algumas das medidas exigidas pela ‘troika’.

Entretanto, Passos Coelho garante que, qualquer que seja a versão dos documentos assinados entre o Executivo e a ‘troika’, um Governo laranja compromete-se desde já a cumprir esse acordo. O presidente social-democrata acusa porém os socialistas de terem agora ido longe demais com aquilo a que chama de “desculpas esfarrapadas”.

No discurso da última noite, em Vila Real, o líder do PSD apelou a uma maioria absoluta, garantiu que leva o CDS para o governo e disse que já não tem paciência para as "desculpas esfarrapadas" do executivo de José Sócrates.

"Eu quero garantir-vos a todos: qualquer que seja a última versão, nós iremos cumpri-la, porque é Portugal que está em jogo, não é uma mera luta política. Nós cumpriremos, mas, caramba, já estamos fartos de um Governo que nunca sabe o que diz e nunca sabe o que assina em nome de Portugal", afirmou Passos Coelho.

CDS já sabia
Paulo Portas explicou aos jornalistas que assim que o documento do acordo foi tornado público, o seu partido fez uma análise, comparando-o com o memorando assinado pelo CDS, tendo sido encontradas 20 diferenças. Dessas, salientou o líder democrata-cristão, o CDS reteve a alteração em matéria de concorrência de comunicações móveis, para a qual pediu explicações ao Governo.

"O líder parlamentar do CDS pediu uma explicação cabal ao Governo sobre esta matéria e aguardamos essa explicação", afirmou Paulo Portas em declarações aos jornalistas.

"Não sabem o que é que assinaram?"
O coordenador do Bloco de Esquerda Francisco Louçã já criticou a existência de diferentes versões do memorando de entendimento. Ontem, num comício, em Leiria, Louçã deixava a pergunta a PS, PSD e CDS se sabiam o que assinaram.

"Hoje à noite, de repente, aquele contrato, que é tão a sério, parece que ninguém o conhece", ironizou o bloquista, acrescentando que, “se alguém chegasse a Portugal agora para uma visita, um emigrante que venha da Suíça à sua terra, até pode suspeitar que a ‘troika’ é um grupo de rock que vem cantar para o Festival da Zambujeira do Mar”.

"Afinal há um documento e há outro documento. Eles não são bem iguais. Não sabemos bem de que se trata um e outro. E eu quero perguntar: então não sabem o que é que assinaram?", questionou Louçã.

As acusações chegaram também pela mão de Jerónimo de Sousa, que acusa PS, PSD e CDS de esconderem uma versão pior do acordo com a ‘troika’ e de terem pressa para sacrificar os trabalhadores com novas regras nas indemnizações por despedimento a definir já em julho.

“Tanta pressa para tramar os trabalhadores, os seus direitos, para despedir mais facilmente. Esta é a marca desta ‘troika’ estrangeira e desta ‘troika’ nacional”, acusou o líder comunista num jantar-comício em Faro.
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