Agentes defendem decisões conjuntas Portugal-Espanha e fim da diferença de bitolas
Porto, 28 nov (Lusa) - A necessidade de ultrapassar a incompatibilidade entre bitola europeia e ibérica, as opções da alta velocidade e a importância do equilíbrio entre as decisões portuguesas e espanholas foram alguns dos temas debatidos hoje num encontro sobre o setor ferroviário.
A Associação Empresarial de Portugal (AEP) promoveu hoje um debate sobre a mobilidade na fachada atlântica no setor ferroviário, tendo reunido técnicos, políticos e especialistas, quer espanhóis, quer portugueses, para discutir o futuro do setor e as alterações consideradas relevantes.
Um dos presentes foi o secretário-geral do Eixo Atlântico, Xoán Vázquez Mao, que, aos jornalistas à margem do encontro, explicou que as prioridades são "a modernização das linhas, poder entrar dentro da rede europeia, e uma dupla vertente", quer de passageiros, quer de mercadorias.
"O TGV é um tipo de sistema para toda a população em geral e, como foi dito, não é o Ferrari dos ricos. A experiência espanhola dita que o sistema TGV é positivo, está a modernizar não só o transporte como a economia e a produzir um impacto tremendamente positivo em todas as populações por onde passa", declarou.
Denunciando uma "década tremendamente confusa em termos políticos" na Península Ibérica, Xoán Mao foi bastante crítico: "Um ministro de Sócrates que faz o contrário do que o anterior ministro de Sócrates; um governo de Zapatero fazia o contrário do que um ministro do próprio governo. Não havia uma linha clara".
A situação, declarou, levou os dois países "para onde estão e agora há governos novos que estão a começar e como todos os governos novos temos que ter esperança que façam as coisas de uma forma diferente", declarou.
Já Vítor dos Santos, presidente da Ferrovias, defendeu que a questão da bitola "é uma falsa questão", porque já existe "uma estrutura ferroviária que está longe de estar esgotada" e o espaço português "no que diz respeito às mercadorias é ibérico, não é europeu", argumentou.
"Não há mais transporte de mercadorias por ferrovia porque não há mais transporte de mercadorias para fazer e porque não há preço para o fazer. Hoje não somos competitivos. Não é possível fazer transporte de mercadorias por ferrovia em Portugal sem prejuízo", disse aos jornalistas.
Vítor dos Santos disse ainda defender "uma rede de bi-bitola permanente", explicando que "os espanhóis já estão a adotar, porque na mesma plataforma de construção fazem-se duas vias".
Por seu turno, o presidente da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento dos Sistemas Integrados de Transportes, Mário Lopes, considerou que a ferrovia portuguesa "não comunica com a restante ferrovia europeia", sendo esse o "problema de fundo", como o classificou.
"Em Portugal, a política de obras públicas e de infraestruturas é aos bochechos, para resolver um problema aqui, um problema ali, quando não é para dar dinheiro a um amigo", condenou, alertando para o risco de Portugal "se isolar voluntariamente por falta de visão estratégica dos governantes".
Para Mário Lopes, é preciso "pensar em conjunto" em termos ibéricos, além de serem necessárias "negociações equilibradas com Espanha e uma visão global estratégica" do setor.