Agricultores preocupados, mas também otimistas, com campanha agrícola no Mondego
A preocupação cresce no Baixo Mondego sobre as intervenções necessárias, após as cheias de fevereiro, para garantir a realização da campanha agrícola deste ano, nomeadamente a recuperação dos terrenos e infraestruturas de rega, disseram fontes do setor.
O Presidente da República, António José Seguro, deverá encontrar-se, na quarta-feira, no Baixo Mondego, com agricultores e associações representativas destes, dos concelhos da Figueira da Foz, Soure, Montemor-o-Velho e Coimbra, no âmbito da Presidência Aberta na região Centro que começa na segunda-feira.
Apesar das dificuldades atuais, face aos danos causados pelas cheias, os agricultores confessaram-se preocupados, mas disseram manter a esperança de que as intervenções anunciadas de recuperação do canal condutor geral do Mondego (conhecido como canal de rega e que está danificado em dois locais) estejam concluídas em 01 de maio, como foi prometido pelo presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA).
No entanto, na quarta-feira, Pimenta Machado, em declarações aos jornalistas, em Coimbra, já não se comprometeu com aquela data, apenas afirmando que "maio é maio".
À agência Lusa, João Grilo, da Associação de Agricultores do Vale do Mondego, manifestou-se, no entanto, otimista perante o andamento dos trabalhos, argumentando que a visita de António José Seguro ocorre "numa altura de extrema importância" para aquela região agrícola.
"O Presidente da República vai poder verificar que a nível de infraestruturas do rio Mondego, obras nos diques e canais, as coisas estão a correr muito bem, até melhor do que estávamos à espera. Nesse aspeto estamos muito mais tranquilos", argumentou o dirigente associativo.
"Aliás, já tínhamos ficado mais descansados há algumas semanas, porque verificámos que a determinação com que o ministério do Ambiente estava em avançar com as obras era mesmo concreta. Disseram-nos que há verbas para isso e não é uma preocupação. Se é dia 01 [de maio] ou dia 07 ou 08, não é por aí, o importante é que as obras se concluam, até estou com a esperança que venha a ser um bocadito antes de dia 01 [ainda em abril], o que seria ótimo, porque a água já está a ser necessária", alegou João Grilo.
O otimismo, no entanto, é diferente no que concerne ao ministério da Agricultura, designadamente às infraestruturas de rega, geridas pela associação de beneficiários da obra hidroagrícola do Mondego.
"No passado, quem assumiu essas reparações foi o ministério da Agricultura. Este ano, querem que seja a associação de beneficiários a assumir esse papel e faça um projeto de candidatura para os diversos prejuízos que existem e, a ser assim, só daqui a alguns meses é que se vai começar a ver trabalho a ser desenvolvido", alertou João Grilo.
A preocupação cresce, adiantou o presidente da associação (que é proprietário de uma quinta agrícola com cerca de 100 hectares, localizada desde a década de 1940 junto do canal principal do Mondego, no concelho de Coimbra) "porque já se devia estar no terreno a fazer o desassoreamento" -- concretamente nos terrenos agrícolas invadidos por areia junto ao dique que rebentou, na margem direita do Mondego.
"Nestas situações, que comprometem mesmo as sementeiras, já se devia estar no terreno e nada acontece. E o Ministério da Agricultura está a passar o ónus de tudo para a associação de beneficiários, que já tem tanto para fazer, quando já devia estar no terreno como está o Ministério do Ambiente", observou João Grilo.
Outra preocupação que o empresário agrícola manifestou querer transmitir ao Presidente da República deriva do impacto dos fatores externos -- como o conflito no Irão, como já sucedeu, anteriormente, com a guerra na Ucrânia -- na agricultura do Baixo Mondego, com nova subida exponencial dos fatores de produção, enquanto o preço dos produtos agrícolas produzidos se mantém em baixa, o que, no seu entender, poderá levar a um abandono da agricultura portuguesa, avisou.
Do lado da associação de beneficiários, José Pinto Costa disse à Lusa que existem situações diversas e complexas ao longo do vale do Mondego, com zonas ainda alagadas e outras a precisar de água, e admitiu que os cerca de 50 hectares de campos agrícolas invadidos pela areia arrastada pelo rio poderão não ter condições de realizar, este ano, as sementeiras.
Por outro lado, o levantamento total dos prejuízos nas infraestruturas de rega ainda não está concluído, precisamente por existirem zonas ainda alagadas, cujas valas de drenagem estão obstruídas, concretamente nos campos da ribeira de Foja e vales dos rios Arunca e Pranto.
Pinto Costa admitiu que a associação de regantes assumiu a responsabilidade das intervenções e tem estado a negociá-las com o Ministério da Agricultura e a Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural "no sentido de serem encontradas soluções expeditas".
Na quarta-feira, numa nota enviada à Lusa, o Ministério da Agricultura e Mar esclareceu que a tutela, "através da Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural, encontra-se em estreita articulação com a entidade concessionária pública no território, a Associação de Beneficiários da Obra de Fomento Agrícola do Baixo Mondego, acompanhando no terreno a recuperação do Aproveitamento Hidroagrícola do Baixo Mondego e assegurando que o processo decorre com celeridade e coordenação institucional".
Ainda sobre o Baixo Mondego, a Associação Distrital dos Agricultores de Coimbra (ADACO) quer ver cumprida a data de 01 de maio avançada pela APA para a conclusão da reconstrução do canal de rega e pretende que o Presidente da República "possa ser o garante de que as promessas são para serem cumpridas".
"A data de 01 de maio já é relativamente atrasada para os produtores de arroz, porque na segunda quinzena de abril já têm de meter água nos seus terrenos e esta é uma situação que já preocupa", afiançou o coordenador da ADACO, Isménio Oliveira.
Para além do arroz, os mais de 12 mil hectares da planície agrícola do rio Mondego e dos seus afluentes também produzem milho e batata e, caso a obra atrase, Isménio Oliveira antevê "uma situação muito dramática, que põe em risco as culturas".
No distrito de Coimbra, também as questões relativas à floresta, com dezenas de milhares de árvores caídas após as tempestades e que permanecem nos terrenos, estão por resolver, frisou a ADACO, que defendeu ainda a criação de parques de receção dessa madeira.
"Esta é uma questão nacional e não só de Coimbra. A retirada das árvores é urgente, até porque estamos quase à porta do verão, vem a época de incêndios e é fator de risco acrescido. E o senhor Presidente da República pode aí ter uma ação de sensibilização junto do Governo", vincou Isménio Oliveira.