Ambiente propício a sucesso de OPA Gás Natural sobre Endesa

O ambiente político e económico em Espanha favorece a Oferta Pública de Aquisição (OPA) da Endesa pela Gás Natural, anunciada hoje, com analistas a afirmarem que a operação poderá contar com "simpatia" do executivo socialista.

Agência LUSA /

Analistas citados pela imprensa espanhola argumentam que a operação, que criará o terceiro maior grupo do sector do mundo, surge num ambiente "claramente diferente" ao que se vivia quando, em 2003, a Gás Natural tentou, sem sucesso, uma OPA sobre a Iberdrola.

Ainda que não haja dados claros, analistas consideram que a administração da Gás Natural ou os seus principais accionistas (La Caixa e Repsol) terão sondado previamente o executivo sobre a possibilidade da OPA sobre a Endesa, a maior empresa eléctrica de Espanha.

Recorde-se que quando a Gás Natural tentou a operação sobre a Iberdrola, os socialistas, na altura na oposição, criticaram a recusa do governo popular e do órgão regulador do sector, a Comissão Nacional de Energia (CNE).

Igualmente a pesar o facto de que um segundo fracasso seria "difícil de digerir" pelos responsáveis da Gás Natural, como explicou hoje um observador do sector à edição online do El Pais.

Ao mesmo tempo quer a Caja Madrid quer a La Caixa, vinculadas aos respectivos governos regionais (da capital e da Catalunha), têm participações importantes nas empresas envolvidas na operação, o que pode, no caso da madrilena - que receia ficar minoritária no novo grupo -, afectar o sucesso da iniciativa.

Observadores notam que um elemento importante poderá vir a ser o facto de que Maria Teresa Costa Campí - recentemente nomeada pelo actual governo do PSOE para a chefia do órgão regulador do sector, em substituição de Pedro Meroño - mudou a estrutura do conselho que em 2003 vetou a compra da Iberdrola.

Uma eventual votação sobre a OPA hoje anunciada poderia resultar num empate a quatro votos - os do PP contra os do PSOE -, cabendo à presidente o voto do desempate, com valor a dobrar, e que seria assim decisivo.

Recorde-se que Costa Campí assumiu o comando da CNE depois de ter sido a secretária-geral da Industria no Generalitat, o governo da Catalunha.

Neste quadro, o Partido Popular (PP) reagiu de imediato e negativamente assim que a OPA foi anunciada, afirmando que a operação poria em risco a competência e os interesses dos consumidores espanhóis e deixando os três maiores operadores do sector sob controlo do grupo financeiro catalão La Caixa.

Em declarações aos jornalistas, o secretário executivo de Economia e Emprego do PP, Miguel Árias Cañete, afirmou que o seu partido "observa com grande preocupação a operação".

Segundo referiu, a OPA "poderia por em sério risco o equilíbrio competitivo dos mercados e os interesses dos consumidores", representando uma "concentração sem precedentes" em Espanha de dois operadores, já que a Endesa domina a electricidade e a Gás Natural o gás.

"Hoje as tecnologias mais utilizadas nas novas instalações de geração eléctrica são centrais que utilizam o gás como principal combustível e daí que a expansão da produção eléctrica ficaria praticamente nas mãos de um único consórcio, se a OPA se consumar", afirmou.

Ao mesmo tempo, os três maiores operadores energéticos - Repsol nos hidrocarbonatos, Endesa na electricidade e Gás Natural no gás - "ficariam nas mãos de um único centro de decisão, no caso a La Caixa, de Barcelona.

"Nestas condições é quase impossível garantir a competência e a liberdade de escolha dos consumidores. A maior parte da energia que se consome em Espanha virá da mesma empresa", afirmou.

Cañete considera haver "um fundo político" na OPA que pretende fazer vingar "certos interesses económicos e territoriais", numa alusão directa ao que se espera venha a ser um sim do governo socialista.

Hoje, antes da OPA ser oficialmente anunciada, o ministro da Industria Turismo e Comércio espanhol, José Montilla remeteu para mais tarde qualquer comentário oficial do executivo.

"O governo dará a sua opinião quando for a altura.

Haverá tempo para falar sobre isto nos próximos dias. Hoje, neste momento, quem tem que opinar é a administração (da Endesa)", frisou.

Entretanto, a La Caixa, o principal accionista da Gás Natural, com 35 por cento do capital, reafirmou hoje o seu apoio total à decisão de avançar com a OPA sobre a Endesa, sublinhando que quer permanecer como accionista "de referência" da Gás Natural e do novo grupo que surja da operação.

Nesse sentido, refere em comunicado, a La Caixa reserva-se o direito de aumentar "a sua actual participação com o objectivo de consolidar a sua posição de accionista no novo grupo".

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