Amnistia Internacional critica exploração aurífera por empresas chinesas
As minas de ouro exploradas pelas empresas chinesas no norte da República Centro-Africana (RCA) representam um perigo para os direitos humanos das populações locais e a sua atividade deve ser suspensa, considerou hoje a Amnistia Internacional.
Desde fevereiro de 2019 que quatro empresas chinesas exploram jazidas auríferas perto de Bozoum, em condições tais que o parlamento da RCA as classificou como um "desastre ecológico", num relatório publicado em meados de julho.
"Imagens por satélite, fotos e vídeos mostram claramente que a ribeira Ouham foi afetada nas zonas que envolvem as minas", indicou em comunicado a Amnistia Internacional.
Estes documentos "fazem recear que os direitos humanos das populações locais possam ser comprometidos se não forem tomadas medidas de atenuação fortes", segundo o texto da organização não-governamental.
Em relatório encomendado pelo Governo centro-africano, entregue no final de julho, os cientistas do laboratório Lavoisier de Bangui, apoiados pela agência da Organização das Nações Unidas, para a Ciência, Educação e Cultura (UNESCO), apontaram uma concentração de mercúrio quatro vezes superior ao valor admissível na água da ribeira Ouham.
"Convém notar que a presença de mercúrio não foi detetada a montante do local da exploração mineira. Portanto, esta poluição em metais pesados muito tóxicos provém dos locais da exploração", indicaram os autores do documento.
Mas as autoridades, depois de terem suspendido temporariamente a atividade mineira na região, permitiram às empresas envolvidas que retomassem a exploração.
Particularmente tóxico, o mercúrio acumula-se na cadeia alimentar e os seus efeitos sobre os seres humanos são múltiplos: eczema, perturbações neurológicas e digestivas, malformação dos fetos, entre outros.
"No final de dezembro de 2019, os parlamentares centro-africanos ordenaram o fim da exploração aurífera pelas empresas chinesas, por causa das inquietações suscitadas pela degradação do ambiente. Mas o texto nunca foi assinado pelo presidente da Assembleia Nacional, pelo que nunca entrou em vigor. Desde então, as empresas mineiras continuaram a sua atividade", sublinhou a Amnistia Internacional.
Na RCA, país que está entre os mais pobres do mundo, a exploração das jazidas de ouro, como as de diamantes, é difícil de controlar.
Portugal está presente na RCA desde o início de 2017. A 7.ª Força Nacional Destacada, constituída por 180 militares, partiu em março, para uma missão de seis meses, durante os quais vai ser a Força de Reação Rápida da missão da ONU no país (Minusca, na sigla em inglês).