António Borges espera que privatização da RTP elimine "tentação do poder"

por RTP
“A ideia é eliminar esta extraordinária tentação que tem o poder público de intervir na televisão”, defendeu Borges na entrevista à RTP Informação Lusa

António Borges admitiu ontem à noite, na RTP Informação, que está em estudo a alienação a privados de 49 por cento do operador público de rádio e televisão. Entrevistado no programa Última Palavra, o consultor do Governo para os processos de privatizações mostrou-se convencido de que a entrega da gestão da RTP a uma entidade privada, “de forma relativamente duradoura”, poderia “eliminar” o que considerou ser a “extraordinária tentação que tem o poder público de intervir na televisão”. Quanto à situação financeira do país, estimou que “está resolvido” o “ajustamento da economia”.

O futuro da RTP, propugnou António Borges na RTP Informação, deveria passar por uma entrega da gestão “de forma relativamente duradoura” a uma entidade privada. Na segunda-feira, Pedro Passos Coelho recusou-se a “fazer especulações” sobre a RTP.

Questionado em Cabo Verde sobre as notícias da privatização da estação pública em 49 por cento, o primeiro-ministro afirmava então que não estava “previsto o agendamento para Conselho de Ministros, esta semana, de qualquer matéria referente à RTP”.

“A tempo próprio, como está previsto, o Governo declarará qual é, em termos públicos, o modelo que vai ser seguido para a RTP”, declarou o governante, para reiterar que o “modelo de gestão e de privatização” é para apresentar “até ao final deste ano”.

O Público noticiou no início da semana que a privatização de 49 por cento do capital do grupo RTP seria uma matéria a tratar numa das próximas reuniões do Conselho de Ministros. Já o Expresso avançou tratar-se de um dos modelos em estudo.


O consultor do Governo de Passos Coelho para as privatizações admite que “o Estado possa ficar proprietário ou da maioria das ações ou da totalidade”. Isto se partir para “um cenário de concessão”.

Borges ressalvou que os “termos” do negócio devem acautelar para o Estado “a possibilidade de recuperar” a gestão da empresa, “se o operador privado não satisfizer”.

Para o conselheiro do Executivo, o “ponto importante é o de eliminar esta extraordinária tentação que tem o poder público de intervir na televisão”.

O que “se quer eliminar definitivamente”, na ótica do antigo quadro do Goldman Sachs e do Fundo Monetário Internacional, é a perspetiva de que se pode “controlar melhor” o país gastando mais na Rádio e Televisão de Portugal.

Porque vale a pena, porque assim controlamos melhor, porque assim mandamos mais no país. É isso que se quer eliminar definitivamente e eu isso acho muito, muito bem-vindo”, acentuou.

“A televisão tem que ser uma coisa independente, que tem as suas regras, que obedece àquilo que a Constituição manda, que é o serviço público, mas que depois é gerida com a melhor eficácia possível”, insistiu o responsável.
“Uma ação deliberada para crucificar as pessoas”

Na entrevista à jornalista Fátima Campos Ferreira, António Borges fez também uma avaliação de contornos positivos do processo de “ajustamento”. Para o social-democrata, o Executivo “fez o ajustamento da economia”, que se encontrava “extraordinariamente desequilibrada”. E a “mentalidade de gastar excessivamente acabou”.

“Todos sabemos que estávamos a viver muito acima das nossas possibilidades e a viver exclusivamente de crédito externo, um crédito que acabou. E ficámos numa situação dramática. Esse problema está resolvido e a economia está equilibrada. Hoje gastamos o mesmo que produzimos”, sustentou.

Reconhecendo que não é ainda possível apontar uma “luz ao fundo do túnel”, Borges disse-se convencido de um desfecho análogo ao da crise que o país viveu entre 1983 e 1985: “Custou. Foram dois anos difíceis e depois tivemos um período de crescimento muito forte”.

Confrontado com a controvérsia suscitada por declarações que fez no passado recente, o consultor do Governo queixou-se de “quem quer ter o monopólio da mensagem que a comunicação social passa”. E de uma comunicação social portuguesa que, na sua opinião, “é a mais conservadora do mundo”.

“Muitas vezes, há uma ação deliberada para crucificar as pessoas e aproveitar a mais pequena polémica para silenciar as pessoas”, apontou António Borges. “Cada vez que alguém quer mudar alguma coisa cai tudo em cima. Qualquer coisa que se mude está-se a tocar nos interesses de A, B ou C e aparece imediatamente um consenso para nada se mudar. Assim não vamos a sítio nenhum”, remataria.
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