Aposta na economia é uma "estupidez", afirma investigador Fernando Jorge Cardoso

Aposta na economia é uma "estupidez", afirma investigador Fernando Jorge Cardoso

O investigador Fernando Jorge Cardoso considera que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) é um caso de sucesso, se existirem baixas expetativas, considerando a aposta na vertente económica "uma estupidez" dos governos.

Lusa / Adicionar como fonte informativa

Num balanço dos 25 anos da CPLP, o investigador do ISCTE -- Instituto Universitário de Lisboa e do Instituto Marquês de Valle Flor considera que o olhar "depende das expetativas" que se geraram com a fundação da organização.

"Na minha expetativa, Fernando Jorge Cardoso, a CPLP é um êxito", mas, "na maioria das pessoas, que tem expetativas económicas, é um desastre. É uma expetativa que é impossível de atingir", reconhece o investigador, em entrevista à Lusa.

"É uma estupidez tentar que a CPLP seja uma organização económica porque não é, não foi" esse o objetivo da sua fundação e a maior parte dos países que a compõem têm o essencial do seu relacionamento económico com outros países que não os lusófonos.

Tirando casos como Cabo Verde, São Tomé e Príncipe ou a Guiné-Bissau, para quem a relação económica com Portugal é essencial, Fernando Jorge Cardoso salienta que existem outros parceiros económicos mais relevantes para cada país-membro.

O "essencial do relacionamento de Portugal é com a União Europeia, o Brasil com o Mercosul e Moçambique é com a África do Sul", exemplificou o investigador, considerando que "não vale a pena ir contra o ditame da geografia" de cada um dos países-membros.

"Tentar encontrar aqui uma comunidade económica é uma mentira que só tem explicação no seguinte: uma intenção impossível e interesses de alguns empresários e de algumas associações empresariais receberem subsídios dos Orçamentos do Estado dos países-membros para fazerem de conta que estão a criar uma comunidade económica", resume o investigador.

Para o especialista em relações internacionais, um país "pertencer a agrupamentos multilaterais é benéfico para todos", mas cada um dos membros tem relações regionais mais fortes.

"A relação entre estes países está menos dependente da CPLP do que destes próprios", explica, embora defendendo a herança comum da língua e da cultura lusófona.

"A palavra lusofonia é um berbicacho, porque significa falantes de português e isso não acontece em todos os países da CPLP", recorda o investigador, dando o exemplo de Moçambique, onde coexistem "17 línguas nacionais".

"Dizer que estes países são lusófonos é um insulto" e uma "mentira", considera.

Apesar disso, "existe na verdade uma identificação de natureza sentimental e histórica entre as pessoas", que inclui o português, como língua franca, bem como "a música ou a gastronomia" e vários "elementos de natureza cultural".

Nos dias 16 e 17 de julho, decorre em Luanda a cimeira de chefes de Estado e de Governo da CPLP, que assinala o início da presidência angolana da organização.

Quanto ao mandato de Angola, Fernando Jorge Cardoso considera que "não deverá ser substancialmente diferente dos anteriores".

"O objetivo deve ser "manter como foco o ensino e expansão do ensino do português", procurando "aumentar o intercâmbio de natureza cultural e diplomático entre os países", explica.

Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, são Tomé e Príncipe e Timor-Leste são os Estados-membros da CPLP.

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