Economia
Automóveis consomem mais do que o prometido
A indústria automóvel enganou os automobilistas portugueses em 1,6 mil milhões de euros, desde 2000, manipulando a informação sobre o consumo real dos veículos. Os dados são de um estudo, realizado à escala europeia, da Federação Europeia de Transportes e Ambiente que indica ainda uma manipulação que abrangeu toda a indústria automóvel e que custou aos condutores europeus um extra de 149,6 mil milhões de euros nos últimos 18 anos.
Em 2017, devido a essa manipulação, os portugueses gastaram mais 264 milhões de euros em combustível extra. À escala europeia, a manipulação ascendeu a um gasto extra de 23,4 mil milhões de euros, quase tanto quanto os portugueses tinham gastado no ano anterior em alimentação.
A federação tem como objetivo promover a nível da União Europeia (UE), mas também do resto do mundo, uma política sustentável de transportes, minimizando impactos nocivos para o meio ambiente e para a saúde e maximizando a eficiência dos recursos. É apoiada por 58 organizações de 26 países da Europa, incluindo as ambientalistas portuguesas ZERO e Quercus.
Crédito: Associação Zero
O que foi pago a mais pelos condutores portugueses desde 2000, 1,6 mil milhões de euros, é superior aos gastos totais das famílias portuguesas durante um ano em educação, nota a organização ambientalista ZERO.
A organização salienta que na leitura dos números, mais baixos, tem de se ter em conta que as emissões totais do transporte rodoviário de Portugal representam só cerca de 1,8% do setor na UE em 2016, e que o número de automóveis novos com grandes diferenças entre o que se diz que consomem e a realidade é menor em Portugal.
Manipulação de testes de CO2
A manipulação dos testes de CO2 (dióxido de carbono), notam a ZERO e a Quercus, citando o estudo, tem também custos ambientais elevados. O maior consumo de combustível traduziu-se em mais 2,8 milhões de toneladas de dióxido de carbono emitido desde o ano 2000. Em 2017 as emissões foram 6 por cento superiores ao que deviam (mais 500 mil toneladas).Desde o ano 2000, a manipulação dos testes de dióxido de carbono (CO2) foi responsável por uma emissão adicional de 264 milhões de toneladas.
Francisco Ferreira, presidente da Associação ZERO diz, citado num comunicado, que é fundamental "haver um enorme esforço de transparência e credibilização dos dados das emissões e metas do setor automóvel, responsável em Portugal por praticamente um quarto do total das emissões de gases com efeito de estufa", para que se possa de facto chegar a 2050 com neutralidade carbónica (não produzir mais do que a natureza pode absorver).
A Quercus, também em comunicado, apela aos ministros do Ambiente e aos eurodeputados para que impeçam a indústria automóvel de continuar "a defraudar as regras".
E diz que a proposta da Comissão Europeia para reduzir as emissões de CO2 dos veículos ligeiros de passageiros e comerciais, depois de 2020, "é inadequada" e traduz-se "numa nova autorização para que a indústria automóvel mantenha o sistema de jogo".
Greg Archer, da T&E, diz: "A afirmação pelos fabricantes automóveis de que fizeram um enorme progresso na melhoria do consumo de combustível é uma farsa. Apesar das regulamentações para reduzir as emissões, não houve melhoria real nas emissões de CO2 nos últimos cinco anos e apenas uma melhoria de 10% desde 2000".
Crédito: Associação Zero
E alerta para a existência de medidas que podiam de forma eficaz prevenir as artimanhas da indústria automóvel, evitando 108 milhões de toneladas de CO2 equivalente até 2030, e poupando aos automobilistas 54 mil milhões de euros na fatura de combustível.
Mário Frota fala em fraude
O presidente da Associação Portuguesa de Direito do Consumo, Mário Frota, afirma que estamos perante uma fraude e alerta que quem se sentir defraudado deve recorrer aos tribunais.
“Qualquer consumidor, ainda que não lesado, pode, a nível individual, propor uma ação popular. A lei concede-lhe, para tanto, legitimidade depois de observados determinados requisitos”, afirmou Mário Frota à Antena1.
“Com maior soma de razões se se tratar de um consumidor lesado. E aqueles que tenham um automóvel de qualquer das marcas envolvidas neste escândalo, tê-lo-á por maioria de razão”.
c/Lusa