Bailarino moçambicano vê o país ainda longe da "independência efetiva"
O bailarino moçambicano Panaibra Canda disse hoje que o seu país continua longe de uma "independência efetiva" 50 anos após ter conquistado a soberania política face a Portugal.
"Há muitas questões em que ainda há muita ingerência do Ocidente. E quando digo Ocidente, digo Portugal, que faz parte da União Europeia", declarou o artista à agência Lusa, na véspera da apresentação do espetáculo "OU" no Teatro São Luís, em Lisboa.
Considerando que, em 1975, "houve uma independência técnica, mas não uma independência efetiva" da ex-colónia, para Panaibra Canda, o país africano de língua portuguesa "tem ainda um caminho a percorrer para encontrar a independência efetiva".
"Isso ainda está presente nas políticas e nas decisões que Moçambique toma. Não nos foi devolvida [há 50 anos] a independência que tínhamos antes da colonização, quando nós próprios decidíamos os nossos destinos", afirmou.
Com raízes familiares em Inhambane, no sul da antiga colónia, Panaibra Canda é um dos artistas em palco no espetáculo "OU", que a companhia CiRcoLando vai apresentar no Teatro São Luís, em Lisboa, entre sexta-feira e domingo.
"Na gestão política, os líderes em muitos casos fazem a vontade ocidental e não dos povos. Espero um dia ultrapassarmos isso e termos a verdadeira independência e a democracia num país em que os moçambicanos possam, de facto, decidir os seus destinos", defendeu.
No atual "contexto `entre aspas` globalizado", segundo o encenador, "as práticas, a forma de organização social e a forma tradicional estão praticamente marginalizadas" em Moçambique.
Quando se completa meio século de independência, a relação de Portugal com a ex-colónia "tem sido mais paternal", à semelhança do que acontece da parte de outros Estados que foram colonizadores face aos colonizados, disse.
"É clara a grande influência que as antigas potências coloniais continuam a exercer", criticou, para concluir que "os colonizados estão simplesmente ao serviço um pouco das ex-potências coloniais".
Expressão do que "pode ser chamado de neocolonialismo", 50 anos depois da emancipação política de Moçambique "parece que a dependência continua", condicionada pela atual correlação de forças a nível global, lamentou Panaibra Canda.
"A solução se calhar está na poesia e na imaginação. Há outras formas de deixar o antigo chão galgado", afirmou à Lusa, por sua vez, o português André Braga, da companhia CiRcoLando, que, no espetáculo de dança "OU", vai partilhar o palco da sala Luís Miguel Cintra, no Teatro São Luís, com o bailarino moçambicano.
"Resultado de uma colaboração entre André Braga & Cláudia Figueiredo e Panaibra Canda, `OU` tomou como pronto de partida a paisagem de Inhambane, terra de memórias familiares e coloniais, onde o presente se mistura com as reverberações do passado", de acordo com uma sinopse da produção.
Inhambane, capital da província homónima, em Moçambique, é a "terra da boa gente" de que falou o navegador Vasco da Gama, em 1498, quando ali aportou com a sua armada a caminho da Índia.
"Tanto o Vasco da Gama descobriu Moçambique, como os moçambicanos descobriram o Vasco da Gama", disse André Braga, ao preconizar a este propósito que, "se calhar, o terceiro mundo é que é o primeiro".
"OU" assume "uma linguagem fortemente transdisciplinar" que "entrelaça dança, som, vídeo, luz e palavra num tecido sensorial que convida à escuta e à imaginação", explicam os autores na nota.
"A proposta é um convite a pensar a história pela via da ficção, da fabulação, da presença fantasmagórica como forma de justiça e memória", sublinham.