Banco Mundial alerta para crescimento “insustentável” da China

O modelo económico chinês atingiu um “ponto de viragem”. O país precisa de reformas estratégicas urgentes para contrariar um crescimento que já é “insustentável” e que pode transformar-se em crise nos próximos 20 anos. A conclusão é de um estudo conjunto do Banco Mundial e de um grupo de investigadores do Governo chinês que foi tornado público esta segunda-feira.

Ana Sanlez, RTP /
O "número um" do Governo da China, Wen Jiabao Adrian Bradshaw/POOL

Intitulado “China 2030”, o estudo revela que para permanecer à tona o país deve apressar-se a reduzir o peso das grandes empresas do Estado na economia, dissolver monopólios assentes em setores estratégicos, como a banca, e promover o acesso ao financiamento a pequenas e médias empresas.

O relatório chama também a atenção para a necessidade de a China enraizar o hábito de envolver os cidadãos e as comunidades nas decisões que afetam o quotidiano e da criação de “oportunidades iguais” para todos. O capítulo da sustentabilidade fica completo com recomendações para aumentar os gastos com políticas sociais, reformar o sistema fiscal e apostar nas tecnologias ambientais.
Capital chinês em Portugal

Nos últimos meses, Portugal ficou a conhecer algumas das empresas estatais chinesas, através das recentes aquisições da REN, por parte da State Grid, e da EDP, pela Three Gorges.

As empresas públicas chinesas gozam de um estatuto privilegiado dentro da estrutura económica do país. Os bancos emprestam dinheiro às empresas do Estado quase indiscriminadamente, como ficou patente na resposta à crise de 2008, quando milhares de empresas privadas foram à falência em detrimento do financiamento prioritário às companhias estatais.

Os grandes grupos monopolistas detêm a proteção dos reguladores do mercado, apesar das muitas insurreições de empresários privados sobre a falta de competição interna e externa.

O país - e o Partido Comunista - têm apertadas leis contra a saída de capitais chineses para outras economias e proíbem o investimento estrangeiro em setores considerados “estratégicos” como a energia ou a banca.

Segundo as normas chinesas, cabe ao Governo “controlar os postos de comando”.



“A política pró-ativa de mudança tem sido a chave do sucesso económico da China e a necessidade de implementar reformas no país nunca foi tão grande”, pode ler-se no estudo de 468 páginas redigido em colaboração com o Centro de Investigação de Desenvolvimento do Conselho de Estado chinês.

Na conferência de apresentação do documento, em Pequim, o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, alertou para a urgência de uma tomada de posição por parte do Governo chinês. “O atual modelo de crescimento do país é insustentável”, reclamou Zoellick. “Chegou a altura de estar à frente dos acontecimentos e de nos adaptarmos às grandes mudanças nas economias nacionais e mundiais”, sublinhou ontem na capital chinesa.

Para Zoellick, as medidas citadas constituem um desafio tangível para a China e deverão ser aplicadas gradualmente ao longo dos próximos 20 anos. Caso contrário, o atual crescimento desenfreado baseado nas exportações vai acabar por cair abruptamente.

Nos últimos 30 anos, a China obteve um crescimento médio anual na ordem dos 9,9 por cento. Neste sentido, o vice-presidente do Centro de Investigação e Desenvolvimento chinês classifica as reformas propostas como “necessárias”, na medida em que com o atual modelo, a segunda maior economia do mundo deverá começar a crescer “apenas” cinco ou seis por cento ao ano.

Apesar de reconhecer que as medidas propostas deverão enfrentar uma feroz oposição por parte dos grupos de interesses que dominam a economia chinesa, Zoellick mantém a fé: “As reformas não são fáceis mas acho que vamos ver este relatório andar para a frente”.

As esperanças do presidente do Banco Mundial recaem nos próximos líderes do país, os atuais vices presidente e primeiro-ministro, que deverão transitar para as cadeiras do poder no início de 2013.
Tópicos
PUB