Bancos controlados por espanhóis valem mais de um quarto da banca portuguesa
Lisboa, 21 mar (Lusa) - Os bancos controlados por espanhóis ou com maioria de capital espanhol valem mais de um quarto da banca portuguesa em termos de ativos, detendo uma quota de cerca de 28%, segundo cálculos efetuados pela Lusa baseados em dados da APB.
O ativo total do sistema bancário português (aplicações noutras instituições de crédito, instrumentos de capital e de dívida e créditos, entre outros) era pouco mais de 400 mil milhões de euros em junho de 2015, segundo os balanços consolidados de 17 instituições financeiras disponíveis no `site` da Associação Portuguesa de Bancos (APB).
O banco estatal Caixa Geral de Depósitos ocupava o lugar cimeiro em termos do valor de ativos, representando um quarto do total (cerca de 100 mil milhões de euros), surgindo em segundo lugar o maior banco privado português, o Millenium BCP (quase 79 mil milhões de euros), que tem como acionistas de referência a angolana Sonangol (17,8%) e o grupo espanhol Sabadell (5%).
Em terceiro surge o Novo Banco (62 mil milhões de euros), controlado pelo Fundo de Resolução bancário (do Banco de Portugal e participado pelos bancos).
Desde 2015 que os bancos nacionais têm vindo a perder quota a favor da expansão espanhola: além do britânico Barclays (com ativos avaliados em 14 mil milhões de euros) adquirido em setembro pelo Bankinter, também o Santander Totta, o agora quarto maior banco do `ranking` com ativos de mais de 40 mil milhões de euros tem vindo a ganhar força em território português, depois de ter adquirido o Banif. O banco do Funchal, cujos ativos estavam calculados em 12 mil milhões de euros em junho de 2015, foi alvo de uma resolução em dezembro de 2015.
Já o BPI, que tem como principal acionista o grupo bancário espanhol La Caixa com 44,1% do capital, seguido da `holding` de Isabel dos Santos Santoro Finance com 18,6%, valia cerca de 41 mil milhões de euros, em junho de 2015, o que correspondia a uma quota de cerca de 10%.
Também do universo espanhol faz parte o BBVA, com ativos ligeiramente superiores a cinco mil milhões de euros, mas que fez um percurso contrário ao do Santander no ano passado, com o encerramento de 26 agências em Portugal.
No total, Bankinter [ex-Barclays], Santander Totta, BPI e BBVA, bancos controlados por espanhóis, detêm ativos no valor aproximado de 112 mil milhões de euros, ou seja uma quota de 28%.
O Novo Banco deverá ser vendido em julho e os espanhóis BBVA, Santander, Popular e CaixaBank têm sido apontados na imprensa como potenciais interessados, o que, a acontecer, significaria que o peso dos acionistas espanhóis no mercado financeiro português passaria de 28% para quase 44%.
Da lista dos bancos com maior peso no mercado nacional, fazem ainda parte o Montepio, com ativos avaliados em mais de 22 mil milhões de euros, e o Crédito Agrícola, aproximadamente 14 mil milhões de euros. Juntos detêm uma quota de mercado de cerca de 9%.
O comentador da SIC e ex-líder do PSD, Luís Marques Mendes, anunciou no domingo que está a ser preparado um manifesto sobre a "eventual espanholização da banca", apontando o Presidente da Fundação Batalha de Aljubarrota Alexandre Patrício Gouveia como um dos mentores da iniciativa que, segundo o Diário de Notícias, conta já com 50 subscritores entre economistas e empresários.
No centro das preocupações, que se agudizaram desde a compra do Banif pelo Santander Totta, está a venda do Novo Banco e a venda da participação de Isabel dos Santos no BPI ao CaixaBank.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, transmitiu, na semana passada, ao rei de Espanha em Madrid a sua posição sobre a crescente entrada de entidades financeiras espanholas em Portugal, salientando que "uma presença significativa é diferente de ser exclusiva".
"Quando eu falei das relações económicas, é de imaginar que o sistema financeiro é uma componente importante. É conhecida a minha posição sobre essa matéria - segundo a qual é importante uma presença significativa espanhola em Portugal, o que é diferente de haver um exclusivo. Não é uma posição exclusiva a um país, é uma posição de fundo", disse Marcelo Rebelo de Sousa numa conversa com os jornalistas após o encontro e jantar com Felipe VI.
A 18 de março iniciou operação mais um banco em Portugal, o Banco CTT.