Bancos devem dar mais informação aos clientes - Silva Lopes

Coimbra, 25 Mar (Lusa) - O antigo ministro das Finanças José Silva Lopes defendeu hoje, em Coimbra, a necessidade de os bancos darem mais informação aos clientes sobre os fundos financeiros, considerando que, em Portugal, existe uma "iliteracia financeira".

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"Não se pode esperar que o cidadão corrente possa apreender facilmente o risco e a mecânica dos produtos muito complicados. O banco deve ser obrigado a explicar ao cliente os riscos que está a correr", afirmou o economista, em declarações aos jornalistas à margem da conferência "Economia Mundial, Autonomia das Políticas Económicas e Paraísos Fiscais".

Silva Lopes, que foi um dos comentadores desta iniciativa que decorreu na Faculdade de Fconomia da Universidade de Coimbra (FEUC), admitiu que, "muitas vezes, essa informação consta dos contratos", a qual, geralmente, está redigida "numa linguagem muito jurídica, difícil de compreender".

"Penso que tem de se fazer alguma coisa para que em produtos mais complicados - em depósitos não é preciso - o aforrador seja informado", sublinhou.

Ao falar dos "problemas em Portugal no sector financeiro", Silva Lopes considerou que no BPN se trata de "um caso completo de fraude e criminalidade, com recurso aos paraísos fiscais", e que no BCP se trata também de fraude, com não cumprimento da lei.

Reportando-se ao BPP, o antigo governador do Banco de Portugal considerou que se verificou "um problema de aplicações demasiado arriscadas".

"Não combinaram o risco das aplicações com o que era a percepção do risco da parte das pessoas que fizeram as aplicações. É um problema de má informação", sustentou, atribuindo aqui responsabilidades à supervisão, que, no seu entender, "deve impor mais informação aos investidores".

Segundo Silva Lopes, em Portugal "há um grande nível de iliteracia financeira: quem faz aplicações em instrumentos financeiros, deve perceber bem se está a correr riscos".

"O que é normal é os bancos venderem produtos como relativamente seguros produtos que não são seguros", afirmou, adiantando que o caso do BPP revela "uma gestão profundamente imprudente".

Comentando, aos jornalistas, a intervenção do magistrado e investigador Jean De Maillard, que associou capitalismo e criminalidade, Silva Lopes rejeitou essa interpretação.

"Não diria que o capitalismo seja criminoso - muitas coisas que ocorrem no capitalismo são imperfeições do mercado", referiu.

Para o docente da FEUC, António Martins, outro dos comentadores da sessão, o capitalismo "não é inerentemente criminoso, mas tem, teve e continuará a ter pessoas criminosas".

Na iniciativa, foram também oradores John Christensen, director da Tax Justice Network, e Bernard Bouzon, da ATTAC França.

Falando sobre os paraísos fiscais, o economista John Christensen defendeu um movimento global da sociedade civil para exercer pressão política contra estes locais, que envolvem "interesses em todo o mundo" e em relação aos quais se verifica "o falhanço sistemático" das instituições internacionais.

Por seu turno, Bernard Bouzon aludiu a "uma aparente hipocrisia política, em que cada Estado procura atrair para o seu território os predadores financeiros".

"A capacidade de financiamento dos predadores financeiros confere-lhes um grande poder de intervenção", considerou.

Na sua perspectiva, "uma nova forma de terrorismo desenvolveu-se no planeta, a pirataria financeira, cujas acções têm repercussões mundiais e gangrena o mundo".

A sessão, a oitava de um ciclo temático, foi organizada pelos docentes de Economia Internacional da FEUC, em colaboração com o Núcleo de Estudantes de Economia da Associação Académica de Coimbra e com o apoio do Núcleo de Economia daquela faculdade.

A iniciativa é complementada, à noite, pela exibição do filme "Paraísos Fiscais, a Grande Evasão" de Frédric Brunnquell, seguida de um debate com o realizador e os participantes na sessão da tarde.

MCS

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