Casas de apostas arriscam milhões na permanência da Grécia no euro

Não são só os líderes europeus a suar as estopinhas sobre a Grécia. Embora a maior parte dos apostadores de todos os quadrantes acredite na manutenção da Grécia no euro, a especulação é forte em todos os cenários. Os próprios gregos mostram-se cada vez mais nervosos, como prova a fuga de capitais do país, a qual acelerou de forma significativa há uma semana, à medida que se aproxima a (mais uma) data de incumprimento no pagamento aos credores.

Graça Andrade Ramos - RTP /
Moedas de euro Kacper Pempel, Reuters

Caso a Grécia não cumpra, o cenário de saída do euro torna-se quase inevitável. Um pesadelo para as casas de apostas, que acreditam no cenário oposto. Para já, a maioria dos apostadores parecem concordar.

De acordo com a agência Reuters, há uma semana as probabilidades da Grécia sair do euro eram de um para cinco - uma estimativa inferior às especulações do início do ano.

A tendência mantém-se esta quinta-feira, apesar dos sucessivos fracassos nas reuniões do Eurogrupo. À pergunta se ‘a Grécia sai do euro em 2015', os sites de apostas online mostram que o não permanece a aposta mais provável.
Não em vantagem
Um dos maiores apostadores, o Betfair, registava esta manhã apostas de mais de 280.000 euros na questão e oferecia vantagens de 1.2 no não (20 cêntimos por cada euro apostado) e 5.8 no sim (4.80 euros por cada euro apostado).

As apostas no Betfair, sobre a saída da Grécia do euro, esta manhã. Foto: RTP

Há uma semana um dos maiores concorrentes de Betfair, Paddy Power, oferecia probabilidades de 2 para 1 sobre a saída da Grécia do euro, quando no início do ano estas eram 11 para 10, ou praticamente o mesmo dinheiro.

"Isto reflete uma alteração na percentagem da probabilidade da Grécia sair da zona euro, de 48 por cento para 33 por cento", explicava um porta-voz da empresa. "Mas, com a situação a evoluir constantemente, não descartamos maiores flutuações nos próximos dias".

A Grécia é um Titanic financeiro. Se conseguirá ser arrastada até bom porto a tempo de ser reparada antes de afundar e arrastar a Zona Euro é algo que talvez nem Deus saiba. Quem se atreve a especular corre enormes riscos e tem nervos de aço.

Até mesmo os fundos de investimento de alto risco preferem prudência quanto às consequências que um Grexit ('Greek exit' ou saída grega da moeda única) teria sobre o euro ou sobre a economia europeia.
Paciência e caldos de galinha
A maioria dos gestores recuou na exposição dos seus fundos à Grécia. Na conferência GAIM sobre fundos financeiros que decorreu esta semana no Mónaco, as posições de investimento cobriam todas as hipóteses, desde o encurtar ao máximo as margens, até a apostas fortes em todas as alternativas ou na escolha de apenas uma.

A maioria dos gestores está à espera de que a situação se esclareça. "Dada a incerteza nos mercados devido à situação grega, não me sinto à vontade em investir neste momento", refere Eric Knight, responsável máximo pelo fundo Knight Vinke valorizado em 1.1 mil milhões de dólares.

Knight decidiu igualmente adiar o lançamento de um novo fundo previsto para setembro.

Aos gestores interessa sobretudo o impacto de um Grexit nas empresas em bolsa da região. Os títulos gregos desvalorizaram sete por cento desde o início do ano e muita da sua dívida pública aumentou.

A maioria dos gestores está a evitar expor-se à dívida grega e os mercados de capitais.

O que irá suceder aos euros gregos se a Grécia sair da moeda única? Foto: Reuters

Alguns fundos de fusões e aquisições apostam num acordo com a Grécia e a maioria dos fundos de investimento mantêm-se otimistas quanto à evolução da zona euro, já que o Banco central Europeu tem estado a imprimir moeda para relançar economia.

Outros gestores apostam forte na desvalorização, em pelo menos 1.05, do euro face ao dólar, em caso de agravamento da crise grega.
A precisão das apostas online
Um dado curioso são as fontes a que os gestores de fundos estão a recorrer para se orientar na tempestade.

Os sites de apostas online estão a tornar-se um bom barómetro para prever o que que vai suceder em diversas questões políticas. Acertaram em cheio nas eleições israelitas em março, por exemplo, e no referendo de independência da Escócia, quando as sondagens de forma geral falharam.

Apesar das somas envolvidas nas apostas nestes sites serem insignificantes se comparadas com os milhares de milhões movimentados nos mercados financeiros, este tipo de precisão vale mais do que análises de comportamentos ou de políticas. Nesta economia de casino, as casas de apostas mostram-se muitas vezes mais agressivas do que os fundos de investimento.

A Paddy Power prevê 48 por cento de probabilidade (11/10 de vantagem) da Grécia ter uma moeda própria até ao final de 2017. E 45 por cento de hipóteses (probabilidades de 6/5) de que Atenas vai entrar em incumprimento este ano, forçando a sua saída do euro.

A William Hill fechou em maio as apostas sobre esta hipótese. Na altura as probabilidades eram de um para cinco de que a Grécia seria o primeiro país a abandonar a Zona Euro e de três para um de que isso sucederia este ano.

"Há muitas pessoas que sabem muito mais do que nós sobre o que vai provavelmente suceder e, com as negociações numa fase tão sensível, não quisemos aumentar o nosso risco", explicou à Reuters o porta-voz da empresa, Graeme Sharpe.

"Podemos perder somas de cinco dígitos (se a Grécia sair) e não temos qualquer intenção de as subir aos seis".
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