Centeno pede que se crie estabilidade como a que permitiu que geringonça funcionasse
O ex-ministro das Finanças Mário Centeno pediu hoje que se criem as condições de estabilidade necessárias para que o país avance, defendendo que foi o equilíbrio da «mesa de três pernas» que fez com que a geringonça funcionasse.
Perante uma sala cheia com muitas personalidades do mundo político, incluindo o presidente do Conselho Europeu e ex-primeiro-ministro, António Costa e o líder do PS, José Luís Carneiro, o livro «Contas Certas», da autoria de Mário Centeno, foi apresentado hoje em Lisboa.
No discurso, Mário Centeno defendeu que «meses de preparação e um resultado eleitoral que poucos antecipavam» em 2015 possibilitaram o governo socialista de António Costa, apoiado por toda a esquerda no parlamento, que ficou conhecido como geringonça, mas a quem o antigo ministro gosta de chamar «mesa de três pernas».
«Resultou porque havia um equilíbrio na tal mesa de três pernas e havia muito respeito», defendeu, considerando que na altura se tinha a clara noção que, com «uma perna a menos, a mesa caía».
Aos jornalistas, no final dos discursos, Centeno defendeu que é preciso, neste momento do país, «criar essa estabilidade» que existia com a mesa de três pernas.
«Nunca nos são dadas todas as condições que nós se calhar à partida desejaríamos para executar um determinado mandato. É obrigação de quem está e quem vive o ciclo político, em cada momento, criar essas mesas de três pernas a partir daquilo que é a realidade que foi a votação que os portugueses tiveram em cada uma das eleições, em particular na última que é a que está em vigor», exortou.
O antigo ministro das Finanças deixou um apelo: «olhemos para os dados, olhemos para a situação e, voltando a esta analogia que eu espero feliz, encontraremos a mesa de três pernas que em cada momento permite fazer o país avançar».
«Não vai ser entregue pelo IKEA, nem vem as instituições de montagem, é preciso construí-las», ironizou.
Questionado se a crítica era diretamente para o Governo, Centeno disse que não era exclusivamente para o executivo porque nenhum dos agentes políticos o têm feito, explicando que esse foi o motivo do seu apelo também para a Presidência da República «porque as instituições têm de funcionar todas em conjunto».
Considerando que "as responsabilidades de um político são as de preparar o futuro antes dele chegar" porque "os políticos que gerem o dia-a-dia não só não veem o futuro chegar, como se espantam quando ele chega", o antigo governador do Banco de Portugal sublinhou que não é no seu futuro que está a pensar.
"Neste momento o país tem um ciclo político em curso, esse ciclo político tem de fazer o seu curso. Vocês sabem também que a minha opinião é de que as legislaturas são para cumprir", disse.
No entanto, para Centeno "cumprir uma legislatura significa também dialogar, negociar".
"Nós temos de dialogar com o nosso tempo, e a exigência que temos hoje em dia é muito grande para que se perca qualquer minuto que não seja em diálogo para conseguir dar resposta aos desafios. Existem agentes políticos para isso hoje e eu não faço parte deles", assegurou.
No arranque do seu discurso, Centeno fez duas referências, uma ao líder do PS, José Luís Carneiro, e outra a António Costa.
«Ao Zé Luís, quase que como estímulo do enorme esforço que têm que fazer neste momento, e faria isto a outros líderes partidários, porque não é fácil hoje em dia olhar para todos estes problemas que enfrentamos, e eu reconheço esse esforço no Zé Luís. E ao António por me ter colocado nestes preparos, a partir de novembro de 2014», disse.
Para o antigo governante, "a coragem sem preparação aproxima-se da imprudência".
Da longa lista de personalidades presentes, destaque ainda para os ex-ministros José António Vieira da Silva, Pedro Silva Pereira, Duarte Cordeiro, Francisca Van Dunem, Marta Temido, João Leão, Pedro Siza Vieira, Mariana Vieira da Silva, Matos Fernandes ou Paulo Macedo.