Centralização de créditos pode sair mais cara a prazo, mas reduz a prestação mensal
A centralização de vários créditos numa única instituição financeira pode reduzir o custo mensal dos empréstimos mas encarece o custo total a longo prazo, alertam as associações de consumidores contactadas pela agência Lusa.
Nos últimos três a quatro anos têm surgido no mercado empresas de crédito especializado a venderem produtos padronizados de consolidação, que permitem a uma pessoa juntar num único crédito e numa única instituição os vários empréstimos que tem (crédito da casa, do carro e da viagem, por exemplo).
O recurso à consolidação dos créditos é frequentemente utilizado como forma de diminuir os encargos mensais de empréstimos, especialmente em momentos de subida das taxas de juro, como o actual, em que a taxa de referência do BCE já duplicou, desde Dezembro de 2005.
Muitos bancos estão já a oferecer também esteve serviço e alguns vendem-nos até através dessas empresas especializadas, mas o presidente da Associação Portuguesa de Consumidores e Utilizadores de Serviços Financeiros (SEFIN), António de Almeida, disse à Lusa que estas soluções conduzem ao agravamento dos custos totais dos empréstimos, ainda que no curto prazo se possam traduzir pela redução da prestação mensal do conjunto dos créditos.
A centralização de créditos permite transformar empréstimos de prazos mais curtos (normalmente entre os 6 meses e os quatro anos) em créditos a prazos mais longos (a 20 ou 30 anos), juntando-os em muitos casos com o crédito à habitação.
Com a garantia hipotecária por trás, os bancos e outras empresas de crédito especializado, aceitam juntar todos os créditos num só, explicou à Lusa João Fernandes, da Deco.
No entanto, António Godinho, presidente da Exchange, empresa que vende serviços de consolidação de crédito, explicou que começam já a surgir empresas que fazem essa centralização dos empréstimos sem exigência de hipoteca.
Nesses casos, a consolidação corresponde apenas a crédito pessoal, como por exemplo cartões de crédito e um empréstimo para comprar uma televisão, mas assentam no mesmo princípio: reduzir taxas, alargar o prazo de pagamento e reduzir a prestação mensal do empréstimo.
Ambos os especialistas da Deco e da SEFIN desaconselham este tipo de produtos porque de um ponto de vista global eles encarecem os custos dos empréstimos, mas reconhecem que pode haver pessoas a precisarem de recorrer a eles como forma de reduzir a prestação mensal dos empréstimos, por terem incapacidade de pagamento ou por precisarem do dinheiro para outros fins.
"Se a pessoa quer reduzir os encargos mensais, a consolidação de créditos vai permitir fazê-lo; no entanto, é preciso ter presente que a solução global passa normalmente a ser mais cara", segundo João Fernandes.
"Geralmente o alargamento do prazo tem um efeito mais negativo do que a descida das taxas de juro" sobre o custo total do empréstimo, frisou o mesmo analista, mas é preciso verificar caso a caso.
António de Almeida, da SEFIN, diz que normalmente os bancos oferecem condições "menos gravosas" na consolidação de créditos do que as outras instituições de crédito, mas alerta que de uma maneira geral a publicidade destes produtos é enganosa.
Diz-se que a consolidação permite reduzir em até 60 por cento os custos dos empréstimos, mas na realidade, se se fizerem as contas ao custo do empréstimo no conjunto dos anos, este aumenta, concluiu o presidente da SEFIN.
As duas associações de consumidores disseram não dispor de números agregados sobre o andamento deste serviço financeiro, mas admitem que à medida que forem surgindo mais pessoas com dificuldades no cumprimento do crédito estes produtos podem vir a ganhar mais adeptos.
António Godinho avançou à Lusa que o produto de consolidação de crédito foi aquele que teve um maior crescimento na Exchange no primeiro semestre de 2007 (duplicou), representando 19 por cento da totalidade do crédito concedido.
O BCP, um dos bancos que também está a comercializar este produto, prevê que na actual conjuntura de subida de taxas e de aumento das prestações inerentes aos créditos, a procura destes produtos "terá, tendencialmente, uma evolução positiva", escusando-se, contudo, a revelar dados concretos sobre o segmento de mercado.
Artur Ferreira, responsável pela consolidação de crédito da GEMoney, reconheceu que a sua empresa assume em muitos casos mais riscos que os bancos.
Segundo o mesmo responsável, um cliente com incidentes bancários pode passar a financiar todos os seus empréstimos a uma taxa entre os 10 e os 12 por cento, enquanto um cliente sem sinais de incumprimento pode enfrentar uma taxa entre os cinco e os seis por cento.
Há vários créditos ao consumo que têm taxas entre os 20 e os 25 por cento, o crédito automóvel ronda os 12 a 15 por cento e as taxas dos cartões de crédito também são bastante elevadas, afirmou Artur Ferreira, pelo que as taxas no crédito consolidado são sempre mais baixas.
Artur Ferreira reconhece que se uma pessoa deixar o empréstimo consolidado chegar até ao final do seu prazo, vai acabar por pagar mais com este tipo de produto, mas sublinha a vantagem de uma família em arranjar algum desafogo orçamental no final do mês e de poder passar de uma situação em que não consegue cumprir as suas obrigações financeiras para uma em que pode.