Centros de burla continuam ativos apesar da extradição de magnata
Organizações não-governamentais (ONG) disseram hoje à Lusa que os centros de burla no Camboja continuam a operar, apesar da extradição para a China do magnata acusado de dirigir operações criminosas utilizando trabalho forçado.
O diretor do Prince Holding Group, Chen Zhi, um empresário chinês, acusado nos Estados Unidos de liderar redes de tráfico humano e de burlas `online` no Sudeste Asiático, foi detido no Camboja e extraditado para a China na quarta-feira.
No entanto, Serene Li, fundadora da Global Anti-Scams Organization, sediada em Phnom Penh, disse à Lusa que a ação mediática não levou a uma repressão da indústria. "Não há complexos de burla a serem encerrados", afirmou Li.
Li Ling, cofundadora de outra ONG que investiga fraudes online, a EOS Collective, alertou que só no Camboja "existem mais de 250 centros de burla".
A ativista explicou à Lusa que as investigações da organização revelam que a maioria destes centros envolve vastas redes de proprietários. "Até os centros operados por [cidadãos] chineses exigem conivência com governos locais e senhores da guerra," afirmou.
De acordo com o Ministério do Interior do Camboja, outros dois cidadãos chineses, Xu Jiliang e Shao Jihui, foram detidos e extraditados juntamente com o magnata de 37 anos.
Em meados de outubro, a procuradoria do distrito leste de Nova Iorque e a divisão de Segurança Interna do Departamento de Justiça dos Estados Unidos acusaram Chen Zhi de crimes financeiros relacionados com trabalho forçado.
As autoridades norte-americanas sustentam que o magnata dirigia um império criminoso no Camboja sob o chapéu do Prince Group, que detém empresas em mais de 30 países.
O império incluía pelo menos dez operações fraudulentas no Camboja, forçando "centenas de vítimas de tráfico humano", confinadas em "complexos semelhantes a prisões", a trabalhar em burlas em plataformas digitais numa "escala industrial".
Na última década, desde fundar o Prince Group, Chen Zhi doou pelo menos três milhões de dólares (cerca de 2,5 milhões de euros) ao Governo cambojano e outros 16 milhões de dólares (13,68 milhões de euros) a projetos comunitários, através de uma fundação.
Milhares de pessoas são traficadas para centros de burla em todo o Sudeste Asiático, onde são torturadas e forçadas a defraudar vítimas em todo o mundo, formando uma operação de escravatura moderna que movimenta milhões. Sobreviventes e ONG já detalharam anteriormente esta violência à Lusa.
A escala é global. A Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol) confirma no seu portal que vítimas de 66 países foram traficadas para estes centros de burla online, sendo que aproximadamente 74% foram levadas para centros no Sudeste Asiático. Novos centros estão também a surgir na África Ocidental, no Médio Oriente e na América Central.
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