Cimeira trará "fortíssima" ajuda europeia à recuperação económica de África
O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros português António Monteiro estima que a cimeira desta semana entre os líderes europeus e africanos possa resultar numa ajuda "fortíssima, por parte da União Europeia, ao programa de recuperação económica de África".
"Há verbas muito significativas disponíveis por parte da Europa. (...) Acho que vai haver um esforço da União Europeia que é notável e que poderá ajudar muito a situação económica do continente" africano, disse à Lusa o diplomata, "ideólogo" das cimeiras entre Europa e África, a propósito da reunião entre os líderes da União Europeia e da União Africana, que decorre na quinta e na sexta-feira em Bruxelas.
A presidente da Comissão Europeia anunciou na passada quinta-feira, no Senegal, um plano de investimentos para África que mobilizará cerca de 150 mil milhões de euros, o primeiro plano regional no quadro da nova estratégia de investimento da União Europeia.
Questionado sobre se era a este plano que se referia, António Monteiro antecipou que além desse haverá outros apoios, que estão a ser preparados, "inclusive pela própria Presidência francesa" da União Europeia.
"Acho que essa é uma ajuda efetiva e aliás merecida. Nós temos de investir em África", afirmou.
O antigo embaixador disse acreditar que essas dotações possam constituir "uma peça de toque para a recuperação da economia Africana", mas também permitam que os dois continentes recuperem "uma relação que ultrapasse aquela que África tem com qualquer dos seus outros parceiros".
António Monteiro defendeu que essa cooperação económica deverá colocar os países europeus "de facto como parceiros incontornáveis" dos Estados africanos.
"Creio que o Presidente [francês, Emmanuel] Macron está muito interessado em desenvolver esse novo relacionamento com África. Mas não podemos deixar isto somente nas mãos do Presidente Macron", disse o antigo chefe da diplomacia portuguesa.
"Espero que seja a União Europeia e que Portugal também tenha um papel extremamente positivo, como aliás é tradicional no que diz respeito a estas cimeiras, que são, de facto, e foram sempre, inspiradas muito por aquilo que são as convicções portuguesas do relacionamento especial que queremos ter com África", acrescentou.
O diplomata disse esperar que desta cimeira, que tem uma importância acrescida por ocorrer num momento ainda dominado pela pandemia de covid-19, saia um maior apoio da Europa ao nível da vacinação anti-covid-19, não só para transferência de vacinas para África, mas também para produção local de vacinas naquele continente.
Além das questões relacionadas com a pandemia e a recuperação económica, António Monteiro acredita que os dois continentes irão abordar questões como a energia e as migrações.
"O que temos de valorizar cada vez mais é uma análise conjunta dos benefícios da imigração legal -- podemos aqui acolher e temos necessidade com certeza de cidadãos africanos. O que nós temos de combater conjuntamente é a imigração ilegal: temos de agir contra os gangues organizados e toda a panóplia de atrocidades que acompanham as questões da imigração ilegal e da exploração do ser humano", defendeu.
Para o diplomata, "África e Europa têm um interesse comum em avançar tão rápido como possível contra esse flagelo".
Sobre a energia, disse tratar-se de um setor importante que tem de ser "trabalhado conjuntamente" pelos dois continentes, e mostrou-se confiante de que as divergências, nomeadamente sobre os investimentos em gás natural, são "ultrapassáveis desde que haja uma conversa aberta entre Europa e África".
Trinta e nove países e agências de desenvolvimento prometeram parar o financiamento de projetos de combustíveis fósseis no exterior durante a cimeira do clima de Glasgow, em novembro, decisão que tem sido criticada pelos países africanos, que argumentam que o gás é o mais limpo dos combustíveis fósseis e pode ter um papel na transição energética no continente.
O Presidente do Senegal, que atualmente preside à União Africana, já se insurgiu contra a medida, que disse pôr "mais injustiça nos ombros de África".
A cimeira entre a União Europeia e a União Africana, adiada diversas vezes devido à pandemia de covid-19, vai juntar em Bruxelas, pela primeira vez desde 2017, os chefes de Estado e de Governo dos dois continentes entre quinta e sexta-feira.