Cinco sindicatos prometem greve “histórica” na TAP
Os sindicatos dos trabalhadores de terra da TAP avançam na próxima sexta-feira para uma greve contra o que dizem ser a "arrogância e prepotência" da administração de Fernando Pinto. Os sindicatos acusam o Governo de planear o recurso à empresa de handling Portway para garantir serviços, mas a tutela diz que o conflito está a ser tratado "a nível da administração".
"São cinco sindicatos que representam praticamente todos os trabalhadores de terra do grupo TAP", assinalou o dirigente sindical, deixando ainda a expectativa de uma adesão acima de 90 por cento.
A greve une os sindicatos dos Técnicos de Handling de Aeroportos (STHA), dos Trabalhadores de Aviação e Aeroportos (SITAVA), das Indústrias Metalúrgicas e Afins (SIMA), Nacional dos Trabalhadores da Aviação Civil (SINTAC) e dos Quadros da Aviação Comercial (SQAC).
Em causa, alegam as estruturas sindicais, está a defesa dos três mil postos de trabalho da Groundforce, empresa tutelada pela TAP que assegura a gestão de bagagens. A administração de Fernando Pinto é ainda acusada de desviar operações de manutenção de aviões para a TAP Brasil, antiga VEM.
Sem respostas
A indisponibilidade da administração e do Governo para o diálogo é outra das razões que estão na base da greve de quatro dias. Assim como os planos para a alienação da Groundforce.
"Estamos há dois meses a pedir uma reunião e nem uma resposta tivemos. Enviámos para o Ministério [dos Transportes e das Obras Públicas] outro pedido, com conhecimento do gabinete do primeiro-ministro, e só tivemos resposta do primeiro-ministro, quando o ministro nos havia pedido para o contactarmos antes de qualquer greve", adiantou André Teives.
O conflito entre sindicatos e administração intensificou-se depois de o presidente executivo da TAP ter considerado "irresponsável" a posição dos representantes dos trabalhadores. A 13 de Agosto, em entrevista à RTP, Fernando Pinto prometia "agir" para assegurar "todos os voos".
"A entrevista do engenheiro Fernando Pinto à RTP foi uma verdadeira vergonha. Ofendeu-nos a todos, disse um sem número de inverdades e portanto o Governo permite que isto assim seja", afirmou o dirigente do STHA.
Por sua vez, José Maridalho, do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas e Afins, descreveu a gestão de Fernando Pinto como "um regabofe", imputando ao presidente executivo uma atitude de "arrogância e prepotência". A tutela, sublinhou, foi "avisada mais do que uma vez, através destes sindicatos, na pessoa do ministro dos Transportes". "Dá-me ideia de que o senhor ministro assobia para o lado e não tem mão nesta gestão", rematou.
"Questão tratada a nível da administração"
As cinco estruturas sindicais acusam o Governo de estar a planear o recurso à empresa Portway, por intermédio da ANA-Aeroportos de Portugal, com vista a garantir o transporte de passageiros entre zonas de embarque e aviões nos dias da greve. Consideram também que só a criação de um"grupo de trabalho tripartido com sindicatos, Governo e administração da TAP" pode desbloquear o processo de negociações.
Contactado pela RTP, o ministro dos Transportes e das Obras Públicas sustentou que o conflito deve ser resolvido entre a administração da TAP e os trabalhadores. À agência Lusa, Mário Lino disse não ter "por hábito intervir em questões laborais, só em questões excepcionais": "Esta questão está a ser tratada a nível da administração".
A administração da transportadora aérea afirma que a ruptura do diálogo foi assumida pelos sindicatos no momento em que apresentaram o pré-aviso de greve. O porta-voz da TAP, António Monteiro, atribuiu a paralisação a motivações políticas, relacionadas com a proximidade das eleições legislativas, e manifestou estranheza quando questionado sobre a transferência da manutenção de aviões para a antiga VEM: "É ridículo. A greve é da Groundforce. O que é que a Groundforce tem a ver com a manutenção? Este foi um dos pontos que causou a perplexidade da administração".
Na óptica da TAP, a sobrevivência da Groundforce "é a principal questão". "Não nos podemos esquecer de que a Groundforce teve um prejuízo, no ano passado, de 36 milhões de euros e este ano vai caminho dos 25 milhões de euros", salientou António Monteiro, em declarações citadas pela agência Lusa.
"Garantir o futuro da Groundforce" e "todos os postos de trabalho" é precisamente o objectivo dos sindicatos. "Se isto não estiver garantido, não vale a pena falar no resto. Estamos num impasse porque não há vontade para o resolver. Nós estamos a lutar pela viabilidade da empresa", frisou André Teives.
Groundforce quer sentar sindicatos à mesa das negociações
Uma fonte da empresa de handling detida pela TAP adiantou, entretanto, que fez chegar aos sindicatos um convite para uma reunião a realizar na quinta-feira. A iniciativa visa analisar propostas para viabilizar a Groundforce.
"O objectivo é analisar os resultados do grupo de trabalho formado há alguns meses, composto por responsáveis da Groundforce e dos sindicatos, para analisar conjuntamente propostas que contribuam para a viabilização da empresa", indicou a fonte citada pela agência Lusa.
A Groundforce alega que mantém "a disponibilidade, nunca recusada, para um diálogo com os sindicatos, integrando os seus contributos construtivos". Afirma ainda que o grupo de trabalho viu as suas actividades interrompidas, "sem que nada o fizesse prever, pela apresentação de um pré-aviso de greve".