Clientes do BPP dizem não ao plano de João Rendeiro
Os clientes do Banco Privado Português rejeitam o plano do antigo presidente do BPP para a viabilização do banco. O advogado dos clientes diz que a proposta de João Rendeiro é inaceitável, já que os clientes não estão dispostos a abdicar das garantias de retorno do investimento, elemento-chave do Plano Rendeiro.
A solução preconizada por Rendeiro passa por utilizar o capital do banco para entregar de imediato cerca de 100 mil euros aos clientes, desde que aceitem prescindir da garantia de retorno dos investimentos que fizeram. No entanto, a resposta chegou por Miguel Henriques, advogado dos clientes, ao sublinhar que qualquer solução tem de passar pela reposição da totalidade do dinheiro das poupanças dos clientes.
Trata-se de uma posição semelhante à Privado Holding, que detém a instituição, e que garante ser esta uma iniciativa individual de João Rendeiro e da qual se demarca.
Sublinhando que Rendeiro está retirado há sete meses, não se encontrando portanto em condições para apresentar alternativas, a actual administração do BPP considera que a proposta agora avançada não é fiável nem credível.
Em comunicado, a equipa liderada por Adão da Fonseca lembra que Rendeiro não pertence aos órgãos do banco desde final do ano passado, pelo que não tem na posse todos os dados para avançar com propostas.
Para a equipa de gestão do BPP, distribuir dinheiro pelos clientes é uma intenção contrária à lei e contraproducente para os depositantes.
Plano Rendeiro em alternativa ao plano de Teixeira dos Santos
Em entrevista à RTP, João Rendeiro, antigo homem forte do BPP, apontou o dedo ao Governo e à supervisão, afirmando ter um plano alternativo à solução avançada no início da semana pelo ministro das Finanças para os clientes do banco.
A ideia passa pela "distribuição imediata de 100 mil euros a cada cliente", capital a sair dos cofres do Banco Privado Português.
Com o BPP a viver há meses um clima de forte instabilidade - com as sedes do banco a serem constantemente alvo dos protestos dos clientes de retorno absoluto que estão impedidos de mexer nos seus depósitos -, o fundador do banco avançou à RTP uma solução alternativa à transição preconizada pelo ministro das Finanças dos produtos do BPP para uma entidade a ser gerida por outras instituições bancárias da praça portuguesa.
Nesse sentido, João Rendeiro propõe a "distribuição imediata de cerca de 100 mil euros por cada cliente", dinheiro que sairia dos cofres do banco, onde o fundador da instituição garante estarem 230 milhões de euros.
E para que os clientes abdiquem da garantia de retorno do investimento, Rendeiro oferece acções do próprio banco.
"Pelo facto de [os clientes] prescindirem da garantia de capital, os accionistas do banco deveriam ceder 20 por cento do capital do banco aos clientes", advoga Rendeiro. "Eu próprio estou disponível para fazer a doação da minha posição accionista no banco, que é de cerca de 14 por cento", garantiu o banqueiro, que pretende assim pôr cobro a uma polémica na qual, sustenta, os mercados financeiros tiveram a sua culpa e onde a supervisão e o Governo têm pecado por falta de rigor.
Executivo não pode apontar o dedo
"O ministro [das Finanças] não pode estar a falar em crimes, que houve a prática de crimes, quando nenhum administrador do banco sequer foi ouvido sobre esta matéria", apontou Rendeiro, referindo-se às acusações disparadas no início da semana por Teixeira dos Santos, durante a conferência de imprensa em que apresentou a solução aos clientes do BPP.
Na terça-feira, o ministro das Finanças sustentou que, "no âmbito da acção desenvolvida pela CMVM e pelo Banco de Portugal, foram detectadas irregularidades graves que consubstanciam a prática de crimes no âmbito da actividade deste banco", actividades que "envolvem, nomeadamente, a realização de operações fictícias em prejuízo dos clientes e casos de falsificação contabilística".
Nesta entrevista à RTP, João Rendeiro ripostou, afirmando que "não pode haver ninguém, desde o Banco de Portugal à CMVM (Comissão de Mercado de Valores Mobiliários), ao Ministério das Finanças, aos auditores, que venha dizer que não sabia que nós garantíamos o capital".
Há cinco anos fora da gestão do BPP
João Rendeiro garantiu na entrevista à RTP que não fazia parte da gestão executiva do banco há cinco anos e que "a área de retorno absoluto era uma área onde não tinha qualquer participação, nem directa nem indirecta, onde não era consultado, porque não quis que o banco fosse um banco de um homem só".
Por outro lado, é do próprio Rendeiro que parte a garantia de que "os activos dos clientes do banco estão absolutamente intactos.
"Tenho a certeza absoluta que não houve ninguém no banco, desde a administração - começando no presidente até ao mais simples funcionário -, que tenha feito qualquer apropriação indevida", acrescentou.
Nesse sentido, João Rendeiro antevê que o âmbito das averiguações de que está a ser alvo é inteiramente diverso, apesar de colocar a forte hipótese de vir a ser constituído arguido: "Temas fiscais, do planeamento fiscal, ligado às minhas remunerações no banco".
"Sou visto por muitas pessoas - é a conclusão que retiro deste processo - como uma máquina registadora, onde se carrega e sai dinheiro. E, portanto, concluo que tinha o apoio de muitos investidores enquanto fosse a máquina registadora", lamentou Rendeiro.