Combate à evasão de tarifas não resolve desequilíbrio comercial entre EUA e China
O reforço dos controlos norte-americanos sobre produtos chineses exportados através de países terceiros não resolverá os desequilíbrios comerciais entre Washington e Pequim, de acordo com uma análise do grupo de reflexão (`think tank`) norte-americano CSIS.
Num artigo publicado recentemente, o investigador Hugh Grant-Chapman, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), com sede em Washington, considera que a Administração do Presidente norte-americano, Donald Trump, está a confundir práticas fraudulentas de evasão às tarifas aduaneiras com a reorganização legítima das cadeias de produção internacionais.
"A Casa Branca confunde ações empresariais inteiramente legítimas com comportamentos criminosos", afirma o investigador, ao analisar um relatório publicado em agosto pela Administração Trump, intitulado The Great Transshipment Scam.
O documento da Casa Branca acusa a China de recorrer a mais de 40 economias intermediárias para contornar as tarifas impostas pelos Estados Unidos, através do reencaminhamento de mercadorias chinesas.
Segundo Grant-Chapman, a Administração norte-americana alargou o conceito de reexportação, tradicionalmente associado à passagem de mercadorias por países terceiros sem transformação significativa, para incluir produtos efetivamente fabricados nesses mercados com componentes chineses.
O investigador reconhece que existem casos documentados de fraude aduaneira, nomeadamente envolvendo baterias, produtos siderúrgicos e componentes para painéis solares, mas sustenta que estas práticas explicam apenas uma parte da presença indireta de produtos chineses no mercado norte-americano.
"A reexportação, por si só, não é inerentemente ilegal ou indesejável do ponto de vista das políticas públicas", sublinha.
Um estudo citado pelo CSIS indica que, em 2024, o México e o Vietname foram responsáveis, respetivamente, por 23% e 15% do valor acrescentado chinês que chegou indiretamente aos Estados Unidos.
Contudo, a investigação conclui que grande parte destes fluxos resulta de processos de transformação industrial e não do simples reencaminhamento de mercadorias.
Um estudo da Reserva Federal norte-americana estima que a produção chinesa realizada no México contribuiu com cerca de 14 pontos percentuais para o aumento das exportações mexicanas após as tarifas impostas sobre bens oriundos da China em 2018 e 2019, enquanto a reexportação direta representou menos de um ponto percentual.
A análise do CSIS revela ainda que países como a Malásia, o México, a Tailândia e o Vietname não registaram um aumento generalizado da sobreposição entre os produtos importados da China e os exportados para os Estados Unidos.
Em contrapartida, o Camboja e o Laos apresentam sinais mais evidentes de crescimento destes fluxos, particularmente em produtos siderúrgicos e células fotovoltaicas.
Para Grant-Chapman, o problema fundamental reside nos desequilíbrios estruturais das duas maiores economias mundiais.
Na China, o consumo interno reduzido, o apoio estatal à indústria e um modelo de crescimento orientado para as exportações contribuem para a persistência de elevados excedentes comerciais.
Nos Estados Unidos, os baixos níveis de poupança, o défice orçamental e o aumento do investimento, nomeadamente em infraestruturas de inteligência artificial, alimentam a procura de produtos importados.
"Estes fundamentos macroeconómicos colocam os Estados Unidos na posição de importador líquido e a China na posição de exportador líquido", explica o investigador.
O investigador recorda que, em 2025, as exportações chinesas aumentaram 5,5%, apesar de as vendas para os Estados Unidos terem recuado cerca de 20%, com parte dos produtos redirecionados para outros mercados, incluindo a União Europeia.
O CSIS assinala também que vários países intermediários beneficiam atualmente de tarifas norte-americanas entre 10 e 20 pontos percentuais inferiores às aplicadas à China, incentivando as empresas a transferir operações produtivas para esses mercados.
"Um caminho sustentável exige uma análise mais rigorosa dos padrões do comércio mundial, uma reavaliação dos efeitos das diferenças tarifárias norte-americanas sobre o mercado e um diálogo franco com os parceiros comerciais e os líderes empresariais", afirma Grant-Chapman.