Costa quer avançar para crescente mutualização de objetivos e recursos na União Europeia
O primeiro-ministro defendeu hoje que a União Europeia deve avançar para um modelo de crescente mutualização de objetivos e de recursos próprios e proceder a uma urgente revisão do atual quadro de governação económica e regras orçamentais.
Uma intervenção em que deixou várias advertências: "Os sinais de fragmentação [dos mercados da zona euro] a que assistimos na semana passada devem recordar-nos que temos de agir para reforçar os elementos de confiança e de estabilidade", disse.
Para o líder do executivo, "urge desbloquear o processo de revisão do quadro de governação económica e das regras orçamentais estabelecidas no Programa de Estabilidade e Crescimento".
No seu discurso, António Costa defendeu a tese de que "o investimento em objetivos comuns deve resultar de um esforço verdadeiramente comum" dentro da União Europeia, tal como aconteceu com a emissão de dívida pela Comissão Europeia para financiar os planos de recuperação e resiliência (PRR) dos diferentes países - dívida que será reembolsada por receitas próprias da União.
"Este é um resultado histórico, tanto pela dimensão do envelope financeiro, como pela mutualização do esforço através de recursos comuns. Esta é a única forma de garantir que assimetrias nacionais não se cristalizam e se constrói um futuro próspero onde ninguém fica para trás", sustentou o primeiro-ministro.
Nesse sentido, de acordo com António Costa, como primeiro passo, "não se pode hesitar na pronta definição desses recursos".
"Serão sempre [recursos] próprios: ou as transferências de cada Estado-membro para o Orçamento da União, ou resultarão de novas receitas geradas para o Orçamento da União. As transformações que decorrem da globalização, a par com o nível de integração europeia, exigem que se repense o modelo de tributação, nomeadamente quanto à tributação dos lucros das multinacionais, assim como em relação à tributação verde por via do comércio das licenças de emissão de carbono e do mecanismo de ajustamento carbónico fronteiriço", apontou.
Na perspetiva de António Costa, o sucesso que se conseguir alcançar nesta frente dos recursos próprios "será essencial para definir o futuro do modelo de plena mutualização de objetivos e de recursos próprios da União Europeia".
"Um mecanismo que seguimos agora nos PRR", salientou.
Por isso, para o primeiro-ministro, a questão fundamental que se coloca é a seguinte: "Saber se este modelo se trata de uma solução irrepetível, usada apenas no contexto de resposta à pandemia da covid-19, ou se deve tornar-se numa solução estrutural focada na prossecução de objetivos comuns, casos da defesa, segurança, energia, resiliência económica e autonomia estratégica".
"Ou, com outra ambição renovada, deve transformar-se mesmo num modelo para uma nova geração de orçamento comunitário, mudando o paradigma do atual quadro financeiro plurianual", frisou.
Neste contexto, o líder do executivo português alertou para vários riscos que se colocam a prazo caso não se altere o atual modelo económico da União Europeia.
"Estamos ainda a alguns anos de o Conselho Europeu ter de voltar a reunir-se muitas horas e longos dias em torno do próximo Quadro Financeiro Plurianual. Mas esta distância, aparentemente longa, é muito curta se quisermos mesmo levar esta reflexão até ao fim e tirarmos as conclusões que devemos retirar", avisou.
E caso não se repense "agora e já o próximo modelo de quadro financeiro plurianual, apostando-se numa capacidade de combinação de apropriação nacional de objetivos, partilha comum e confiança mútua entre Estados-membros", António Costa afirmou ter poucas dúvidas de que quem tiver de negociar o próximo Quadro Financeiro, a partir de 2027, "confrontar-se-á com dificuldades porventura insuperáveis" nas negociações entre os diferentes Estados-membros.
Ou seja, advertiu, ou o modelo muda em breve ou haverá novas crises negociais entre os diferentes Estados-membros.
"Hoje, em Portugal, ninguém questiona a importância de finanças públicas sãs. A responsabilidade e o rigor orçamental tornaram-se norma -- e ainda bem que assim é. Estamos determinados em robustecer o nosso enquadramento orçamental", acrescentou, numa nota sobre o elemento de confiança que, na sua perspetiva, deve existir entre todos os Estados-membros da União Europeia.