Economia
Covid-19. Antigo PM australiano aceita cenário de `morte natural` dos mais idosos
É talvez a mais importante discussão moral que subjaz a esta pandemia: perante os custos económicos de um confinamento, deveriam ser relaxadas as medidas de restrição à circulação em nome de princípios económicos quando sabemos que existe uma faixa de população mais idosa que está sujeita a risco de vida quando exposta à covid-19? O antigo primeiro-ministro australiano Tony Abbott fala em "deixar a natureza fazer o seu caminho".
Classificando alguns políticos de “ditadores da saúde”, Tony Abbott propõe que, face aos custos extremos de um confinamento, os decisores deveriam ponderar o cenário em que o grupo dos mais velhos fosse deixado a morrer naturalmente quando infectado com covid-19. O antigo governante faz as contas: está a custar ao governo australiano mais de 123 mil euros prolongar a vida de uma pessoa idosa por mais um ano, muito mais do que os gastos normais do governo nestas circunstâncias. (Uma leitura mais restrita das declarações de Tony Abbott poderia abrir a discussão sobre o quão estreita as suas palavras tornam a separação dos conceitos de eugenia e de morte natural).
É no entanto possível que esta bifurcação venha a colocar-se aos decisores políticos com mais força na eventualidade de uma segunda vaga que volte a colocar os números de infecções face a face com os números do desemprego e dos PIB nacionais.
Coincidentemente ou não, Tedros Adhanom, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, veio esta terça-feira lamentar a desvalorização da morte dos idosos infectados por covid-19. O líder da OMS fala mesmo de “uma bancarrota moral” e deixa o alerta: “Não podemos permiti-lo. Temos que cuidar uns dos outros”.
“Aceitar que a morte dos idosos não é importante é a maior baixeza moral”, declarou Tedros Adhanom durante durante a habitual videoconferência de imprensa transmitida da sede da OMS, em Genebra, na Suíça.
Quanto a uma solução que acolha consenso para a equação do novo modelo social, o líder da OMS considera que o “equilíbrio” entre a reabertura das economias e a proteção da saúde, ainda que “frágil, é possível”.
Apesar da dureza das palavras de Abbot, a discussão não é nova e ultrapassa a questão dos meros gastos no tratamento dos idosos: esteve sempre presente, mesmo que subliminarmente, na enunciação de novos modelos estruturais que a pandemia obrigou a repensar desde que se instalou por todo o mundo. Perante o binómio economia-segurança sanitária, há a ideia de que não se pode ter o melhor de dois mundos e que é necessário fazer a escolha entre ‘a perda de vidas com a manutenção de uma economia aberta’ versus ‘a perda de rendimento perante o primórdio da preservação da saúde das populações’.
Quando se discutiu a opção da Suécia de não fechar os negócios e desobrigar os cidadãos de um confinamento que esvaziava os espaços comerciais era também a questão agora colocada pelo antigo chefe do governo australiano que estava em cima da mesa, uma vez que se sabe que expor a população ao vírus tem consequências mais severas para a população mais velha.
Uma primeira indicação no sentido de atribuir primazia ao rendimento foi dada desde logo do outro lado do Atlântico pelos Estados Unidos, nas primeiras semanas da pandemia, quando os números da covid-19 começaram a fustigar uma economia que se gaba de ser a mais aberta do mundo, aquela em que a iniciativa e a vontade particulares são as âncoras de todo o sistema de valores da nação. Numa diatribe contra as medidas de confinamento e fecho dos negócios, o vice-governador do Texas, o republicano Dan Patrick, deixou no ar a ideia de que os americanos estariam dispostos a dar a sua vida pela economia.
“Os mais velhos preferem morrer do que deixar a economia afundar”, garantia Dan Patrick, ele próprio então à beira dos 70 anos, em declarações à Fox News no final de março, quando o país debatia ainda a estratégia contra o novo coronavírus.
“A minha mensagem é: voltemos ao trabalho, voltemos à vida. Nós, com mais de 70 anos, cuidaremos de nós mesmos. Não sacrifiquem o país. Não façam isso", pedia o vice-governador, assegurando que ele próprio preferia morrer a sacrificar a economia do país e que acreditava que “muitos dos avós por todo o país” também pensariam assim.
“O nosso maior presente ao país, aos nossos filhos e netos, é o legado de nosso país". Dan Patrick não fazia aqui qualquer referência ao legado moral que uma geração deixa à seguinte, referia-se apenas à passagem de uma economia intacta.
É no entanto possível que esta bifurcação venha a colocar-se aos decisores políticos com mais força na eventualidade de uma segunda vaga que volte a colocar os números de infecções face a face com os números do desemprego e dos PIB nacionais.
Morrer naturalmente… de covid-19
A discussão proposta por Tony Abbott é inicialmente mais restrita, apesar de assentar no mesmo princípio de sacrifício de vidas humanas em nome de uma economia sustentável. O antigo primeiro-ministro fala de mais de uma centena de milhar de euros para prolongar a vida de um doente com covid-19.
A esta equação, Abbott acrescenta depois os custos de um confinamento com o lay-off das gerações mais novas de trabalhadores às costas. Neste sentido, considera que escasseiam os políticos “capazes de colocar questões desconfortáveis sobre o nível de mortes com que poderemos ter de vir a lidar”.
“São tempos maus para quem tem o vírus, mas também é uma má altura para pessoas que preferem não ser coagidas pelas políticas oficiais, por muito bem-intencionados que sejam”, sublinhou o antigo governante durante um think-tank em Londres.
“Neste clima de medo foi difícil para os governos perguntarem ‘quanto vale uma vida?’ porque cada vida é preciosa e cada morte é triste, mas isso nunca impediu as famílias de por vezes optarem por tornar a situação dos seus parentes o mais confortável possível enquanto a natureza segue o seu caminho”.
Deixando a mensagem de que, na ausência de uma vacina, “mais tarde ou mais cedo teremos de aprender a viver com o vírus”, Tony Abbott considera que “não é possível manter 40% da força de trabalho num qualquer tipo de subsídio do governo e acumular um défice inédito desde a Segunda Guerra Mundial, enquanto o mundo entra numa espiral não vista desde a Grande Depressão, causada tanto pela resposta do governo como pelo próprio vírus”.
“Após seis meses, é agora o momento de relaxar as regras para que os indivíduos possam assumir mais responsabilidade pessoal e tomar as suas próprias decisões sobre os riscos que estão dispostos a correr”, advogou Abbott.
“Uma bancarrota moral”
Coincidentemente ou não, Tedros Adhanom, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, veio esta terça-feira lamentar a desvalorização da morte dos idosos infectados por covid-19. O líder da OMS fala mesmo de “uma bancarrota moral” e deixa o alerta: “Não podemos permiti-lo. Temos que cuidar uns dos outros”.
“Aceitar que a morte dos idosos não é importante é a maior baixeza moral”, declarou Tedros Adhanom durante durante a habitual videoconferência de imprensa transmitida da sede da OMS, em Genebra, na Suíça.
Quanto a uma solução que acolha consenso para a equação do novo modelo social, o líder da OMS considera que o “equilíbrio” entre a reabertura das economias e a proteção da saúde, ainda que “frágil, é possível”.