Crise deve-se em larga medida a fatores internos - sociólogo norte-americano
Coimbra, 27 abr (Lusa) -- O sociólogo norte-americano Robert Fishman considerou hoje, em Coimbra, que a crise espanhola é condicionada, de forma significativa, pelas crises financeira e do euro, mas deve-se, em larga medida, a fatores internos.
"A crise espanhola atual tem uma natureza económica e política. Embora seja condicionada, de forma significativa, pelas crises do euro e financeira, ela é, em grande medida, caseira", afirmou.
Robert Fishman proferiu hoje, na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), uma conferência subordinada ao tema "Dimensões políticas e económicas da crise em Espanha -- com comparações com Portugal".
"Muito da crise sofrida por Espanha está relacionado, em grande parte, com o padrão de transição para a democracia, que era o único caminho disponível para os atores políticos", observou o professor de Sociologia e `fellow` dos Institutos Kellogg e Nanovic da Universidade de Notre Dame (EUA).
Na sua perspetiva, "Espanha não podia adotar, por várias razões, o mesmo percurso que Portugal, mas a transição em Espanha provocou um divórcio entre os que estavam no poder, nos dois principais partidos políticos, e as preocupações e as reivindicações do cidadão comum, do homem da rua".
Noutra parte da sua intervenção, o sociólogo disse ainda que "as elites políticas espanholas sujeitaram a Espanha a ondas sucessivas de políticas neoliberais de desregulação".
Segundo Robert Fishman, esta perspetiva dominante também contribuiu para a `bolha` da construção, mudando a legislação sobre empreendimentos urbanos, áreas onde se podia construir e assim, de uma forma direta, tornando possível o surgimento de novas urbanizações.
"As elites políticas espanholas também tiveram uma influência indireta nas `cajas de ahorro` e encorajaram-nas a emprestar dinheiro, para que a `bolha` da construção crescesse", frisou.
Na sua ótica, as elites políticas espanholas nos dois principais partidos "também "falharam em travar o crescimento da `bolha`, mesmo quando era óbvio para muitos analistas académicos o quanto era perigosa".
De "diversas formas, as elites políticas espanholas contribuíram para o crescimento da `bolha`, não foi só o euro, muitos outros países participaram no euro e não tiveram uma `bolha" da construção e do imobiliário da magnitude da espanhola", sublinhou Robert Fishman.
Noutro passo da sua conferência, referindo-se à taxa de desemprego "extraordinariamente alta" que a Espanha regista atualmente, o sociólogo observou que "não é nova" e recordou que, em dezembro de 1998, antes do fim da existência da peseta e do surgimento do euro, "o desemprego era de 14% e a economia estava a crescer há anos".
O conferencista foi apresentado pelo diretor da FEUC, José Reis.