Crise do Euro atrasa crescimento da China

O Fundo Monetário Internacional prevê um abrandamento do crescimento da economia da China, numa estimativa de apenas oito por cento em 2012 e 8,5 por cento em 2013 e aponta a crise na Zona Euro como um “risco-chave”. A instituição pede ao Governo daquele país que vigie o impacto da crise da dívida na união monetária uma vez que, segundo o relatório da organização internacional, “o crescimento chinês tornou-se dependente dos investimentos, um padrão que vai ser difícil de sustentar” no panorama da crise financeira internacional. Este ano, a China investiu em Portugal na EDP, na REN e ainda na Petrogal Brasil, num processo que o ministro Paulo Portas garantiu ser “potenciador de forte cooperação económica” bilateral, suscetível de ser capitalizado também pelas pequenas e médias empresas.

Joana Tadeu, RTP /
Segundo o relatório do FMI, a China enfrenta "riscos internos relacionados com o setor imobiliário, o sistema financeiro e as finanças dos governos locais" How Hwee Young, EPA

O Fundo Monetário Internacional prevê que a economia chinesa sofra um "abrandamento suave" ao crescer oito por cento este ano. No entanto deixa o aviso de que, se o Executivo de Hu Jintao não responder eficazmente à crise na Zona Euro, mercado significativo para as exportações da China,  o número pode ser cortado para metade.

O aumento do Produto Interno Bruto chinês desacelerou entre abril e junho pelo sexto trimestre consecutivo, caindo para 7,6 por cento, contra 8,1 por cento nos três primeiros meses do ano. No ano passado o PIB daquele país aumentou 9,2 por cento e, desde o seu pico em 2007, registou avanços médios superiores a 10 por cento. Em 2013 a economia deverá recuperar ligeiramente, para os 8,5 por cento de crescimento.


Crescimento do PIB chinês entre 2006 e 2013 (RTP com dados do FMI).

“A economia [da República Popular da China] parece estar a passar por um período de abrandamento, enquanto as turbulências económicas mundiais continuam a aumentar” resume o documento.

Centrado nas relações internacionais do país, o relatório da organização internacional deixa conselhos de gestão a Pequim sobre as incertezas que a crise da dívida na União Europeia cria para os investimentos chineses.

“A economia tem abrandado, em parte, como resultado de ações políticas para moderar o crescimento para um ritmo mais sustentável, mas o agravamento da crise na Zona Euro representa um risco chave para o panorama”, lê-se no texto. Como defesa, segundo a instituição, a China deve potenciar o consumo interno, face às exportações, como motor de crescimento.
Segundo os relatórios do FMI, a crise que arrasa a economia global fez desacelerar o crescimento económico robusto não só da China, mas de todas as nações de economias emergentes.
O documento debruça-se, principalmente, “sobre as repercussões internas e externas, com especial atenção à forma como o investimento da China afeta o resto do mundo”, com o FMI a reconhecer que a China tem sido um importante impulsionador do crescimento a nível mundial ao potenciar a procura em plena crise financeira global.

Este ano, a China investiu em Portugal nas privatizações da EDP, com a aquisição pela China Three Gorges, e da REN, com o investimento da State Grid. Houve ainda capital chinês investido na parceria no Brasil entre a Sinopec e a Galp.

Paulo Portas fez uma visita oficial à China no início de julho, que se iniciou com um seminário económico sobre as potenciais parcerias entre as grandes empresas dos dois países com destaque para o investimento chinês em Portugal, que o ministro português de Estado e dos Negócios Estrangeiros garantiu ser “potenciador de forte cooperação económica” bilateral, suscetível de ser capitalizado também pelas pequenas e médias empresas.
Riscos domésticosConselhos do FMI
Políticas macroeconómicas: “As políticas devem continuar a ser orientadas para a concretização das metas de crescimento este ano. No caso de um agravamento do cenário externo, a China tem amplo espaço para responder com sucesso, usando a política fiscal como a principal linha de defesa e com ênfase em medidas que apoiem os objectivos da reforma da China a médio prazo.”

Reequilíbrio interno: “A redução significativa no superávit das contas públicas desde os eu pico em 2007 é bem-vinda, mas este reequilíbrio externo tem sido conseguido à custa de aumento dos desequilíbrios internos. O crescimento da China tornou-se cada vez mais dependente do investimento, um padrão que vai ser difícil de sustentar. Por conseguinte, existe uma necessidade de acelerar o progresso na transformação do modelo de crescimento económico para que seja mais dependente da procura e do consumo. Essa transformação aumentaria substancialmente a qualidade de vida e permitiria um crescimento mais equilibrado, inclusivo e sustentável.”

Avaliação externa: “O yuan é moderadamente subvalorizado, reflectindo uma reavaliação da conta corrente subjacente, das reservas internacionais de mais lenta acumulação, e das anteriores apreciações da taxa real efetiva de câmbio.” in IMF Country Report No. 12/195

No relatório, publicado esta quarta-feira, o FMI apela à China para se centrar nos "riscos internos relacionados com o sector imobiliário, o sistema financeiro e as finanças dos governos locais", cujas dívidas aumentaram exponencialmente nos últimos anos.

A banca do país concedeu valores de crédito recorde nos últimos anos, o que gerou um boom no sector imobiliário. Agora, o FMI aponta para a possibilidade de surgir uma bolha especulativa, ou seja, que a única coisa que sustente a progressão do mercado imobiliário seja a entrada de novos participantes.

Sendo o número de compradores finito, o excesso de movimentos neste mercado pode levar a uma queda acentuada dos preços dos imóveis, com consequências para o resto dos mercados domésticos chineses.

Com estes dados, o relatório do fundo conclui que a inflação na China deve “manter-se entre 3 e 3,5 por cento este ano e cair para valores entre os 2,5 e os 3 por cento em 2013”.

Pequim já implantou algumas medidas para restringir esta possibilidade, incluindo aumentos das entradas na compra de casa e restrições ao número de imóveis que um indivíduo pode adquirir em algumas cidades.

Uma economia em que 50 por cento do PIB dependem do investimento para manter resultados positivos, “deve acelerar o progresso na transformação do modelo de crescimento económico para que seja mais dependente da procura e do consumo”, aconselha o Fundo Monetário Internacional.

Ao apresentar o relatório em conferência de imprensa a partir de Pequim, Markus Rodlauer, o chefe da missão do FMI na China, disse que “a China tem um enorme potencial e vai continuar a crescer rapidamente, mas a maneira como este potencial é explorado terá que mudar”. Depois de analisar os dados disponibilizados pela instituição, acrescentou que “são necessárias uma série de reformas”.

Em conclusão, Rodlauer lembrou que a China deve fazer um esforço maior para “garantir que os frutos do crescimento sejam distribuídos amplamente e de forma justa” entre a população.
Yuan é moderadamente subvalorizado
O FMI aponta que a moeda oficial da República Popular da China é “moderadamente subvalorizada”, o que, segundo explica a Reuters reflete um consenso internacional crescente de que o yuan se está a aproximar do seu justo valor, depois de cerca de uma década a ser cotado a valor mais baixo, potencialmente reduzindo-o como factor comercial político e internacional.

“Agora, com o FMI a dizer que está tudo bem, a legitimidade da acusação [de que a China distorce o valor de sua moeda] foi perdida”, disse, à Reuters, Tu Xinquan, diretor adjunto do Instituto Chinês dos Estudos da OMC da Universidade de Negócios e Economia Internacional de Pequim.

Zhiwei Zhang, economista chinês na consultora Nomura, citado pela Reuters, acrescenta que a China flexibilizou o mercado mais depressa do que os credores internacionais esperavam e que “tudo o que isto prova é que a moeda está perto do equilíbrio”.
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