Economia
Crise no Estreito de Ormuz: por que razão o regresso à normalidade não é necessariamente desejável
A questão não é saber quando é que a situação voltará ao normal, mas sim se isso é realmente desejável: a dependência do petróleo é aceitar ficar à mercê de regimes estrangeiros e de estrangulamentos instáveis.
Em primeiro lugar, o que o encerramento do Estreito de Ormuz colocou em evidência foi a extrema fragilidade das artérias comerciais. Este braço de mar, por onde transita um quinto do petróleo e do gás mundiais, revelou-se o ponto de estrangulamento mais vulnerável do mundo.
Durante décadas, os economistas sabiam que Ormuz era estratégico. Mas poucos imaginavam que pudesse ser, de facto, bloqueado. Embora o impacto tenha sido global, foi a Ásia que esteve na linha da frente: 80% do petróleo e 90% do gás de Ormuz destinam-se aos mercados asiáticos.
O transporte paralisado no estreito de Ormuz e as infraestruturas energéticas danificadas pelos ataques, no Catar, por exemplo, tiveram consequências em cadeia: o preço do querosene disparou 70% e o da gasolina 30%, provocando um regresso abrupto da inflação. Isto porque, em cadeia, este choque nos preços da energia está a espalhar-se gradualmente por toda a economia.
A subida dos preços atingiu os 4,2% nos Estados Unidos, enquanto na zona euro chegou aos 3,2% em maio. Todas as instituições internacionais reviram em baixa as suas previsões de crescimento do PIB mundial.
O consumo diminuiu na Ásia, mas também na Europa, devido à falta de recursos disponíveis ou em reação ao aumento dos preços.
Estados Unidos e China resistiram ao impacto do bloqueio do Estreito de OrmuzNesta tempestade, dois gigantes resistiram melhor: a China e os Estados Unidos, por razões radicalmente diferentes.
Os Estados Unidos, que se tornaram exportadores líquidos, utilizaram o seu poder fóssil e as reservas estratégicas como escudo.
A China, por seu lado, demonstrou uma resiliência espetacular ao reduzir para metade as importações de petróleo. Pequim recorreu às suas reservas, mas beneficiou sobretudo da enorme vantagem da transição energética, com a eletrificação a funcionar como um amortecedor de choques. E esta é, sem dúvida, uma das grandes lições.
Regresso à normalidade que vai demorar algum tempo, mas será que é desejável?
Hoje, o memorando do acordo de paz já existe, mas não haja ilusões: o regresso à normalidade levará tempo e os preços continuarão elevados.
Três consequências da guerra explicam este regresso lento e frágil à normalidade:
Em primeiro lugar, porque o estreito é um campo minado. Os especialistas estimam que serão necessários até seis meses para garantir totalmente a segurança da navegação.
Em segundo lugar, as infraestruturas estão devastadas: cerca de quarenta instalações energéticas foram gravemente danificadas por mísseis. No Qatar, o complexo de Ras Laffan só recuperará a sua capacidade total daqui a três a cinco anos
Por fim, as reservas mundiais estão no nível mais baixo desde 2003. A corrida para as repor manterá uma pressão constante sobre os preços, em torno dos 80 dólares por barril, segundo o presidente da TotalEnergies.
A questão já nem sequer é saber quando é que a situação voltará ao normal, mas sim se isso é realmente desejável para as famílias: depender do petróleo é aceitar ficar à mercê de regimes estrangeiros e de estrangulamentos instáveis.
O que esta crise mostra de forma gritante é que a soberania geopolítica é indissociável da autonomia energética. Atualmente, três quartos da população mundial vivem em países dependentes de energias fósseis: o custo dessa dependência ascendeu a 1.700 mil milhões de dólares em 2024, segundo a Swissinfo. E por cada aumento de 10 dólares no preço do barril de petróleo, as despesas líquidas mundiais com importações aumentam cerca de 160 mil milhões de dólares por ano.Energia solar e eólica: a garantia de autonomia energética face ao ciclo fechado dos hidrocarbonetos Para os especialistas do think thank especializado na transição Ember, a energia solar, a energia eólica, as bombas de calor e os veículos elétricos já não devem ser considerados meras alternativas ecológicas, mas sim instrumentos de defesa nacional. Aos que contestam esta teoria alegando que as tecnologias elétricas apenas substituem uma dependência por outra – depois do petróleo saudita, é a vez de painéis solares chineses — respondem que isso é confundir o aluguer com a propriedade.
Uma vez instalados, os painéis solares produzem eletricidade durante 30 anos, sem custos com combustível, sem risco de aumento de preços nem de interrupção do abastecimento.
Um veículo elétrico, uma vez adquirido, funciona com eletricidade doméstica, que pode provir, em grande parte, da energia eólica e solar locais.
Os combustíveis fósseis, por outro lado, exigem importações contínuas. Cada barril, cada carga, cada fluxo nos oleodutos tem de se repetir indefinidamente. O mundo pós-crise não deve procurar recuperar o petróleo de ontem, mas sim construir a autonomia elétrica de amanhã, afirmam os mesmos especialistas.
Diane Burghelle-Vernet / 18 junho 2026 09:55 GMT+1
Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa - RTP