Delphi da Guarda vai despedir 300 trabalhadores a 31 de Dezembro
A unidade da multinacional norte-americana Delphi na Guarda vai abater 300 postos de trabalho a 31 de Dezembro, no quadro de um processo de despedimento colectivo que deverá atingir um total de 500 operários, confirmou esta segunda-feira à RTP uma porta-voz da empresa. A primeira vaga de despedimentos foi comunicada aos sindicatos envolvidos nas negociações.
Contactada pelo site da RTP, Elisabete Henriques, porta-voz da multinacional norte-americana em Portugal, confirmou o abate, a 31 de Dezembro, dos primeiros 300 postos de trabalho "no âmbito do processo de despedimento colectivo em curso". As estruturas sindicais lembram que há mais 200 trabalhadores da fábrica de cablagens para o sector automóvel na calha para o despedimento no primeiro trimestre de 2010.
"A administração diz que o sector automóvel está em crise, a quebra de encomendas foi muito grande e foi isso que levou a administração a tomar esta posição", adiantou o dirigente do STIMM José Ambrósio, citado pela agência Lusa. A Delphi, indicou o sindicalista, tem agora "15 dias para informar os trabalhadores de que serão dispensados". Parte dos funcionários já terá manifestado vontade de integrar a lista de despedimentos.
Protocolo firmado em 2008
Em declarações à agência de notícias, o dirigente do STIMM recordou o conteúdo de um protocolo firmado no ano passado entre as estruturas representativas dos trabalhadores e a administração da empresa. Desde logo uma garantia de protecção para os casais que trabalhem na Delphi: apenas um dos membros do casal será despedido.
O mesmo protocolo estabelece que os trabalhadores a dispensar vão receber dois meses de salário por cada ano de trabalho.
José Ambrósio acredita que o número de despedimentos previstos para o primeiro trimestre de 2010 "poderá até ser menos". No entanto, o vice-secretário do SINDEL, Juvenal de Sousa, mostra-se convicto de que "até finais de Março de 2010 serão abrangidos mais 200 trabalhadores".
A unidade da Delphi na Guarda, com uma força laboral de 950 pessoas, havia anunciado na passada quarta-feira a intenção de despedir 500 trabalhadores entre o final de 2009 e o primeiro trimestre de 2010. A multinacional norte-americana detém cinco fábricas em território português: Guarda, Ponte de Sôr (Portalegre), Seixal, Castelo Branco e Braga.
Poder local quer salvaguarda de direitos dos trabalhadores
No domingo, o presidente da Junta de Freguesia de São Miguel, na Guarda, onde labora a fábrica da Delphi, fez a apologia de "outra geração de apoios públicos" para os trabalhadores a despedir.
"O que me surpreende mais é que nós não estejamos a acautelar devidamente, do ponto de vista legislativo e do ponto de vista dos apoios sociais e profissionais, uma outra geração de apoios públicos para as pessoas que fiquem desempregadas", afirmou o social-democrata João Prata, ouvido pela Lusa.
A resposta, advogou o presidente da Junta de Freguesia, deve "ter muito mais em mente a ideia de incentivar o auto-emprego, de criação de pequenas ou micro-empresas, do que propriamente desenvolver um conjunto de acções de formação profissional".
João Prata exorta ainda os bancos a analisarem "quais as possibilidades de garantir que as pessoas, de um momento para o outro, também não fiquem sem a sua própria casa, sem os seus próprios bens, em função daquilo que vai ocorrer no seu local de trabalho".
Por seu turno, o presidente da Câmara Municipal da Guarda diz não ter "dúvida nenhuma" de que os trabalhadores terão as suas compensações asseguradas. Joaquim Valente, do PS, sustenta que "há uma obrigação do cumprimento integral dos direitos dos trabalhadores", até porque "o Ministério da Economia financiou também a Delphi através de projectos que foram apresentados".
Também o PCP e o CDS-PP da Guarda fizeram publicar comunicados a manifestar preocupação com o futuro dos trabalhadores da Delphi. Se os comunistas locais chamam a atenção para as "muitas promessas feitas pelo Governo, pela governadora civil e pelo presidente da Câmara da Guarda", que não resultaram em quaisquer "passos para evitar os despedimentos ou para criar alternativas de emprego", a presidente da comissão política concelhia do CDS-PP, Isabel Metello, alerta para um cenário de "graves problemas sociais", embora sublinhe que o facto de a Delphi ser uma entidade privada significa que "não há nenhum tipo de pressão que se possa exercer".
Futuro da unidade de Ponte de Sôr em análise
A administração da Delphi recebe na terça-feira, em Lisboa, as diferentes estruturas sindicais para discutir o futuro da unidade da multinacional em Ponte de Sôr, Portalegre. De acordo com os sindicatos, a empresa está a analisar uma eventual alteração da actividade da fábrica para manter os postos de trabalho.
Outro dos temas a discutir é a possibilidade de cortes nos vencimentos e nas regalias dos trabalhadores. Na passada sexta-feira, os operários da fábrica de Ponte de Sôr aprovaram em plenário, por unanimidade, uma moção contra quaisquer reduções salariais ou perdas de regalias.
Em 2008, quando foi conhecida a intenção de fechar as portas da fábrica de apoios, volantes e airbags, sindicatos e administração chegaram a acordo no sentido de indemnizações de dois salários por cada ano de trabalho. Se os trabalhadores não derem luz verde às propostas da administração, poderão ser confrontados com o despedimento colectivo dos 439 funcionários efectivos.
A Delphi de Ponte de Sôr, a laborar há 29 anos, emprega 2,5 por cento da população do concelho.