DGEG defende "prudência" nos planos da REN e diz que armazenagem é a chave do sistema
A DGEG defendeu hoje no parlamento "uma maior prudência" na execução dos planos da REN para eletricidade e gás, considerando ao mesmo tempo que a armazenagem "é a chave do sistema" na transição energética.
Na comissão parlamentar de Ambiente e Energia, o diretor-geral da Direção-Geral de Energia e Geologia (DEGEG), Paulo Carmona, começou por explicar que a entidade "acaba por ser o braço do Estado para a execução da política energética", enquadrando os planos de desenvolvimento e investimento nas redes de eletricidade e gás da REN - o PDIRT-E e PDIRG - nas orientações do Governo e nos objetivos do Plano Nacional Energia e Clima (PNEC).
Segundo o responsável, os pareceres da DGEG e da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) foram globalmente convergentes e positivos, distinguindo entre projetos base, ligados à segurança e operacionalidade das redes, e projetos complementares, associados à expansão da rede e às opções de política energética.
Ainda assim, Paulo Carmona sublinhou a incerteza que rodeia a evolução do setor e disse que a DGEG repetiu "várias vezes aquela palavra de prudência", defendendo "uma maior prudência na abordagem das situações", acrescentando que a REN incorporou os pareceres da DGEG e da ERSE na proposta final.
"Obviamente que nós apreciamos o entusiasmo do operador em construir, construir, construir. Mas, neste caso, era preciso adequar e, sobretudo, irmos fazendo isto todos os dias, todos os anos, gerindo aquilo que são as reais necessidades das famílias e das empresas e que a eletricidade chegue a todos em condições de segurança e sustentabilidade", disse.
O diretor-geral apontou, em particular, para a dificuldade em antecipar a evolução da procura elétrica, numa altura em que os centros de dados, a inteligência artificial, a mobilidade elétrica e o uso crescente de ar condicionado podem pressionar o sistema.
"Hoje em dia temos pedidos de ligação à rede para `data centers` e também para os eletrolisadores de hidrogénio que praticamente triplicam o consumo [de energia] português", afirmou.
Na audição, Paulo Carmona defendeu que o reforço da rede e da armazenagem são hoje os dois vetores centrais da política energética, argumentando que a maior incorporação de renováveis exige maior capacidade de equilíbrio entre produção e consumo. "A armazenagem é a chave do sistema", disse.
O responsável sustentou também que Portugal estava mais avançado do que Espanha em matérias ligadas ao controlo de inércia - mecanismo que funciona como `amortecedor` a perturbações - associado aos eletroprodutores, lembrando que esse trabalho já vinha a ser desenvolvido desde 2018 e ganhou relevância acrescida após o apagão ibérico de 2025.
No setor do gás, apontou o biometano como uma via relevante para a descarbonização, defendendo a ligação da rede às zonas de produção e associando essa aposta ao aproveitamento de resíduos urbanos, industriais e agrícolas.
Sobre a possibilidade de enterrar linhas elétricas, advertiu que "não há uma solução mágica para tudo" e assinalou que o reforço da segurança da rede implica custos acrescidos. "A segurança tem um preço", afirmou.
Como exemplo, apontou o caso de França, mais exposta a tempestades atlânticas, onde após uma grande tempestade no final da década de 1990 foram enterradas várias linhas. Segundo Paulo Carmona, essas infraestruturas sofreram menos em episódios posteriores, mas foram também mais difíceis de reparar, defendendo por isso uma avaliação caso a caso entre robustez, rapidez de reposição e custo para os consumidores.
Paulo Carmona defendeu, assim, um equilíbrio entre ambição e contenção no investimento, argumentando que os planos devem ser ajustados às necessidades reais do sistema e dos consumidores. "Temos um Ferrari, mas se calhar com um Skoda anda-se muito bem", afirmou.