Direção da ILGA Portugal demite-se perante redução da equipa e contexto político
A presidente da ILGA Portugal explicou hoje que a direção se demitiu por estar reduzida a metade e porque o atual contexto político exige uma equipa mais robusta, com maior força e energia para defender os direitos das pessoas LGBTI.
Em declarações à Lusa, Daniela Bento disse que a decisão "não foi fácil" e resultou de um processo de reflexão perante a redução da equipa e o desgaste acumulado ao longo dos últimos dois anos.
"Nós estávamos a ficar com uma equipa reduzida", afirmou, explicando que a direção, habitualmente constituída por 10 elementos, estava a funcionar com cinco.
A saída de vários dirigentes aconteceu sobretudo por motivos pessoais, num órgão em que o trabalho é voluntário e exigente, apontou, salientando que todos acumulam as funções na ILGA com os seus trabalhos.
A presidente destacou, contudo, que a direção conseguiu manter a associação funcional depois de, há cerca de dois anos, ter perdido "uma equipa inteira" de profissionais.
"Conseguimos pôr a equipa toda a funcionar, conseguimos fazer uma série de coisas, conseguimos estar ativas em uma série de momentos", afirmou, destacando que a ILGA fica com uma equipa profissional "boa, estável".
Segundo Daniela Bento, a decisão de sair também está relacionada com a necessidade de renovação perante um contexto político que mudou significativamente nos últimos anos.
"Neste momento a situação política precisa de uma equipa mais robusta, com mais força e com mais energia do que nós já estávamos", defendeu.
De acordo com a responsável, os dois últimos anos foram "muito intensos", com intervenção em várias frentes e sucessivas alterações dos projetos e do plano de atividades, explicou.
"Tivemos muitas viragens" e isso "faz um desgaste enorme", notou, apontando ainda mudanças na estrutura de financiamento, que tornou mais difícil a obtenção de recursos, e alterações políticas que obrigaram a "repensar estratégias políticas" e formas de apoio à comunidade.
Por isso, a atual direção considera importante dar lugar a uma equipa renovada, com novas ideias.
"Dada a exigência política e o cansaço que nós sentimos, é de facto importante haver uma equipa nova e renovada que, de facto, traga novas ideias", afirmou.
Daniela Bento garantiu que a saída não significa um afastamento da associação.
"Nós vamos continuar a dar apoio à nova direção e à ILGA, nós não vamos embora nesse sentido", disse.
Até às eleições, a atual direção mantém-se "plenamente em funções", estando em curso o processo de formação das listas e de convocação do ato eleitoral, previsto para 17 de outubro, segundo a presidente.
A eventual profissionalização das direções poderá ser discutida pela próxima equipa. Daniela Bento reconheceu que todas as pessoas que integram a direção têm "o seu trabalho diário" e que as funções associativas "acarretam tempo", mas alertou para possíveis conflitos de interesse caso os cargos fossem remunerados.
A presidente alertou ainda para um contexto mais difícil para a comunidade LGBTI, devido ao crescimento de movimentos "muito mais violentos" e à disseminação de desinformação.
"É muito difícil acompanhar tudo o que está acontecendo neste momento", afirmou, defendendo que a ILGA continuará a trabalhar para impedir retrocessos.
A dirigente deu como exemplo a questão da identidade de género e a expressão "mudança de sexo para menores de 16 anos", que classificou como "uma desinformação brutal" por poder levar a associar a questão a intervenções cirúrgicas, quando, no caso referido, está em causa a alteração do nome legal.
Daniela Bento lembrou ainda situações de famílias que abandonam crianças e jovens por serem LGBTI e de pessoas que enfrentam discriminação no trabalho.
"Os direitos nunca são uma conquista definitiva", afirmou Daniela Bento, garantindo que, independentemente da próxima direção, a associação continuará a participar na defesa desses direitos.