Dívida soberana. A Rússia a caminho do incumprimento

O Banco Mundial afirma que a Rússia e a Bielorrússia estão "muito perto do incumprimento". Moscovo está a um passo de não conseguir pagar as suas dívidas, na sequência das sanções impostas pelo Ocidente face à invasão da Ucrânia.

RTP /
Evgenia Novozhenina - Reuters

O alerta surgiu de Carmen Reinhart, economista-chefe do Banco Mundial.

Preocupo-me com o que não vejo. As instituições financeiras estão bem capitalizadas, mas os balanços são frequentemente opacos. Há a questão dos incumprimentos do setor privado russo. Não se pode ser complacente”, afirmou Carmen Reinhart à Reuters.O teste fundamental vai acontecer na quarta-feira da próxima semana, altura em que a Rússia vai ter de fazer um pagamento de 117 milhões de dólares.

Apesar de a Rússia ter dívidas relativamente baixas e o seu sistema financeiro estar menos integrado com o resto do mundo, alguns analistas, ouvidos pelo jornal britânico The Guardian, alertam para as consequências praticamente imprevisíveis de um iminente incumprimento da dívida russa.
O que é o default?
O Banco do Canadá e o Banco de Inglaterra, que acompanham os desempenhos das dívidas soberanas à escala mundial, estimam que o total da dívida governamental russa em 2020 tenha sido de 443,2 mil milhões de dólares – cerca de 0,5 por cento da dívida pública mundial.
O incumprimento acontece quando o mutuário não efetua os pagamentos acordados sobre as suas dívidas.
Os governos em situação de default, ou incumprimento, incluem a Argentina, Belize, Equador e Suriname, nações tipicamente incapazes de acompanhar os pagamentos em moedas estrangeiras.

A Rússia tem de fazer dois pagamentos a 16 de março. No entanto, terá um período de carência de 30 dias, o que significa que um incumprimento não acontecerá formalmente até abril.

Se Moscovo não conseguir pagar as suas dívidas a tempo e a horas, esta não será a primeira vez que o país entra em incumprimento.

Durante a revolução de 1917 e em 1998, quando a economia russa permaneceu fraca após o colapso da União Soviética e os custos da guerra na Chechénia, o país não consegui acompanhar os seus pagamentos de dívida. No entanto, nessa altura, a Rússia manteve-se a par dos pagamentos em dólares.
A crise do rublo causou graves danos às economias vizinhas e enviou ondas de choque para o sistema financeiro global.
Nos últimos anos, a Rússia reforçou a sua posição financeira em resposta às sanções ocidentais impostas após a inexação da Crimeia em 2014, com o Kremlin a gerir excedentes orçamentais e a cortar a sua dependência do dólar americano.

Segundo o Instituto de Finanças Internacional, o passivo externo da Rússia- dinheiro devido a credores pelo Governo, empresas e famílias – caiu de cerca de 773 mil milhões de dólares em 2014 para cerca de 480 mil milhões. Deste montante, 135 mil milhões de dólares devem ser pagos aos credores no prazo de um ano.

Contudo, o montante em dívida pelo próprio Governo é relativamente pequeno. O Estado tem cerca de 40 mil milhões de dólares em obrigações de moeda estrangeira (dólares e euros). Já os investidores estrangeiros detêm 28 mil milhões de dólares de dívida russa.

O problema é maior para as empresas russas, com pouco menos de 100 mil milhões de dólares em obrigações internacionais.Poderá a Rússia falhar?
As sanções ocidentais impostas ao Banco da Rússia e aos maiores investidores do país estão a causar perturbações nas transações financeiras.

Em resposta às sanções do ocidente, Moscovo impôs controlos de capital, incluindo a suspensão da transferência dos pagamentos da dívida soberana para investidores estrangeiros.

O Ministério das Finanças já anunciou que vai pagar as dívidas na íntegra e a tempo. No entanto, Putin afirmou que as entidades russas podem pagar as suas dívidas de moeda estrangeira em rublos a taxas de câmbio estabelecidas pelo Banco da Rússia aos residentes de “países que se dedicam a atividades hostis”.

Apesar de Moscovo ter tido moeda estrangeira suficiente para cobrir os pagamentos da dívida, tendo acumulado 630 mil milhões de dólares em reservas, o congelamento dos ativos do Banco da Rússia pelos EUA, Reino Unido e União Europeia tornaram grande parte dessa verba inacessível. No início desta semana, a agência de notação financeira Ficht baixou a classificação da dívida soberana da Rússia para o segundo nível mais baixo, frisando que o incumprimento era “iminente”.

Os incumprimentos de pagamentos da dívida tornam mais difícil e mais caro pedir empréstimos no futuro. Atualmente a Rússia está isolada devido à invasão da Ucrânia. Os governos ocidentais também bloquearam o Estado russo de angariar novos fundos nos mercados de capitais.

Segundo o Instituto de Finanças Internacional (IIF), as sanções que aumentam os custos de financiamento são suscetíveis de atingir a posição financeira do Governo, forçando Moscovo a cortar nas despesas e a aumentar os impostos.

O IIF estima que os bancos estrangeiros desempenham um papel menor na Rússia, detendo 6,3 por cento do total de ativos.

O setor empresarial russo depende principalmente de empréstimos para bancos estatais. A participação estrangeira no mercado da dívida soberana russa é atualmente de 20 por cento do total da dívida pendente, com a incerteza política desde 2014 a desencorajar investidores estrangeiros.
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