Empresa de metalomecânica de Leiria perdeu o teto "mas não o chão"

Empresa de metalomecânica de Leiria perdeu o teto "mas não o chão"

A empresa de metalomecânica de Leiria Usimeca viu grande parte da cobertura voar com a depressão Kristin. Apesar das dificuldades e incertezas sobre o futuro, decidiram andar para a frente, que o teto voou, "mas não o chão".

Lusa /

Em 28 de janeiro, Marta Martins recebeu uma mensagem da sua tia às 06:30 a dizer que a empresa na qual é sócia-gerente e que emprega cerca de 40 trabalhadores estava destruída.

Da sua casa até à firma fundada pelo seu avô, nos Pousos, numa viagem que deveria demorar dez minutos, Marta gastou uma hora devido aos cortes de estrada e começou a antecipar o que iria encontrar ao ver um cenário de destruição pelo caminho.

Com a filha de dois anos ao colo, chegou à Usimeca e viu o principal pavilhão sem cobertura, que tinha sido retorcida e atirada pelo vento para a estrada.

"Foi um choque inicial que demorou dez minutos", diz à agência Lusa Marta, de 32 anos, que encontrou já a irmã Joana e o tio a mexerem-se para irem buscar lonas para tapar as preciosas máquinas da empresa que estavam ao descoberto.

Os dias seguintes foram sobretudo a acudir a essas máquinas (podem custar até um milhão de euros) e a tentar tapá-las da chuva que foi quase incessante nas duas semanas seguintes.

Os prejuízos poderão ser na ordem dos milhões de euros, mas depende de quantos equipamentos ficaram estragados naquela empresa especializada em peças metalomecânicas e estruturas para moldes.

Joana Martins, também sócia-gerente, lamenta que o pavilhão que ficou completamente sem cobertura era "o coração da empresa".

Também os servidores - o "cérebro" da empresa -- não estão a arrancar, face às infiltrações que afetaram os escritórios da Usimeca, onde há baldes e até uma piscina insuflável para ir apanhando a água que caiu do teto falso.

Não há, por agora, coração nem cérebro, "mas os pulmões ainda cá estão e ainda dá para respirar", vinca Joana Martins, de 37 anos.

Com os primeiros dias de sol, começaram a tentar ligar algumas máquinas para perceber o seu estado.

"Com cada máquina que arranca, a gente até dá saltos de felicidade", conta Marta.

Ao mesmo tempo, também vão surgindo más notícias, como uma máquina que liga, mas não arranca, e previsões "nada famosas" de técnicos que já foram ao local, admitem as irmãs, que partilham a gerência da empresa com os tios.

"É uma desgraça das grandes", nota Eugénio Dias, enquanto vai espalhando massa consistente (uma espécie de óleo) numa máquina de 40 anos de grande precisão, na qual já se nota a ferrugem provocada pela água.

Há 30 anos na empresa, onde também está o seu filho, alerta que, naquele tipo de máquinas, o rigor é a palavra de ordem: "Não é como um pedreiro que mais milímetro menos milímetro não faz diferença. É uma profissão com tolerâncias de milésimas de milímetro".

Além das incertezas sobre as máquinas, as notícias que chegaram dos apoios do Governo ainda não convenceram a empresa, que também aguarda a resposta da seguradora.

"Estamos a ponderar, mas estas linhas de financiamento não são apoios e nós não queremos voltar a endividar-nos", afirma Joana Martins, que alerta para o impacto social caso não haja apoios robustos ao setor empresarial da região.

"Muitas empresas ou não vão voltar a abrir ou estarão como nós a tentar reerguer-se um bocadinho na expectativa", lamentou.

Sobre o layoff, chegaram a ponderar avançar com essa solução, mas decidiram que não seria "uma boa opção para ninguém".

"Nós temos de avançar com os órgãos que estão a funcionar. O corpo tem de andar. E uma mão não é nada isolada de um pé, nem isolada de um pulmão. Isto é tudo uma máquina que funciona em conjunto. E, para nós, só faz sentido avançarmos se todos estivermos aqui", vinca Joana Martins.

Pela região, multiplicam-se as imagens de empresas com os seus pavilhões ao descoberto, tal como a Usimeca.

A umas centenas de metros, a empresa de móveis de cozinha e roupeiros CM Santos, com cerca de 30 trabalhadores, perdeu também parte da cobertura -- reposta num dos pavilhões -- e com isso encomendas e material, conta à Lusa o sócio-gerente, Carlos Santos.

Só na quinta-feira a empresa retomou "muito devagarinho" a produção, condicionada pelo gerador "que esteve sempre a disparar".

Também ali, não se optou pelo layoff, numa empresa em que ainda nem teve tempo para contabilizar os prejuízos.

"O objetivo foi remediar e fazer as contas no fim", diz Carlos Santos, que se mostra confiante no futuro e espera retomar a 100% a produção daqui a um mês.

Já no Barracão, numa empresa de paletes de madeira com seis trabalhadores, as perspetivas não são otimistas.

Também sem cobertura, a situação "é de perda total", salienta o proprietário Vítor Gomes.

Perante a perspetiva de estar fora do mercado durante vários meses e a inexistência de apoios a fundo perdido, Vítor entende que recuperar é "quase uma missão impossível".

"Neste momento, esta empresa morre aqui", afirma, referindo que, no seu caso, "não há um chão para trabalhar".

Na Usimeca, Marta Martins admite que o trabalho pela frente é inglório: "Isto não é começar do zero. É começar um bocadinho abaixo do zero".

"A nível de tesouraria, não estamos numa condição boa. Dá para aguentar agora estas semanas, mas, se depois não vier apoio, será difícil", explica Joana, antevendo que a empresa demorará largos meses até poder retomar a produção a 100%.

No entanto, se o teto se foi, o chão, no caso da Usimeca, não.

"Estão cá as raízes. A casa não se faz pelo telhado e a nossa convicção é a de que o chão e os alicerces vão conseguir reerguer o que aqui está".

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