Economia
Empresas já "asfixiadas" temem efeitos de novo aumento das taxas de juro
A Confederação das Micro, Pequenas e Médias Empresas alerta para os impactos de uma previsível nova subida das taxas de juro na zona euro. Jorge Pisco alerta: é "mais um prego no caixão" do tecido empresarial português.
O retrato é negativo: o presidente da Confederação das Micro, Pequenas e Médias Empresas diz que o tecido empresarial português está asfixiado à conta dos sucessivos aumentos no preço dos combustíveis.
Segundo Jorge Pisco, o agravamento expectável das taxas de juro, só vai piorar uma situação já difícil, sobretudo para os empresários que tiveram de recorrer a linhas de crédito.
"Vamos ter mais um prego no caixão para todas as empresas que recorreram às linhas de crédito para ultrapassar as cheias, os fogos, os temporais, as secas, os aumentos dos preços de energia, do gás e dos combustíveis, mas também das que voltaram a acreditar na economia e que investiram em novas máquinas e instalações. A vida vai ficar mais difícil para quem trabalha e empreende", afirmou o líder dos empresários, esta manhã, na Antena 1.
É a escalada dos preços da energia, à boleia da guerra no Irão e do encerramento do estreito de Ormuz, e a consequente inflação generalizada no espaço europeu, que justificam o previsível agravamento das taxas de juro em 25 pontos-base.
Para a Confederação das Micro, Pequenas e Médias Empresas não há, para já, bons sinais para o tecido empresarial português, já em risco de sobrevivência.
"As micro, pequenas e médias empresas vivem já uma situação de asfixia diária, porque vivem essencialmente do fundo de tesouraria. E se não há um controlo, como nós temos vindo a defender, do aumento dos combustíveis, tem-se colocado o risco de sobrevivência de milhares de empresas e de explorações agrícolas, nomeadamente. Portugal merece mais, porque às vezes parece que não gostam que as empresas sobrevivam", lamentou Jorge Pisco.
O líder dos empresários critica, por isso, as políticas do governo de Luís Montenegro. No Programa da Manhã da rádio, Jorge Pisco defendeu que, nesta altura, não podem ser pedidos mais esforços às empresas portuguesas.
"O esforço das micro e pequenas empresas tem limites, não pode ser exigido às empresas um esforço permanente e limitado, perante uma política que, aos nossos olhos, está a contribuir para a destruição do tecido económico nacional. Nós todas as semanas temos vindo a verificar esta pressão dos aumentos dos combustíveis. Hoje, se houver este aumento das taxas de juro, é mais um rombo que as empresas vão ter na sua economia", explicou.
Consumidores também sofrem
Os aumentos das taxas de juro prejudicam as empresas, mas também os consumidores. Quem tem créditos à habitação já está a sentir os impactos, uma vez que os mercados estão a ajustar-se, diz a coordenadora do gabinete de Proteção Financeira da Deco.
"Quem vai ter a sua revisão da prestação agora em setembro já vai sentir o aumento da prestação, porque os mercados já estão a antecipar as subidas das taxas do BCE. A verdade é que se olharmos, por exemplo, para o valor da Euribor a 12 meses, ela já está perto dos 3%. Portanto, isto é claramente o mercado a antecipar a decisão que se espera que hoje venha a acontecer", referiu Natália Nunes.
A situação pode ser mais complexa para os consumidores que têm taxa variável no crédito à habitação e a Deco aconselha, por isso, a optar pela taxar fixa, sempre que possível. Ainda assim, o mais importante, acredita Natália Nunes, é "acompanhar o mercado" para depois saber se é ou não possível continuar a pagar e, se for preciso, renegociar as condições do crédito com o banco.
Portugal tem de ser prudente
Para já, Portugal tem condições para encaixar o eventual agravamento das taxas de juro. É nisso que acredita o antigo ministro da Economia, Pedro Siza Vieira. "Ao contrário de outros países europeus, que são países muito endividados e com baixas perspetivas de crescimento, Portugal até o momento tem estado ao mesmo tempo a reduzir a dívida pública e a manter ritmos de crescimento acima da média europeia. Isso é positivo", afirmou, no Ponto Central, entrevistado pela jornalista Eduarda Maio.
Apesar de o ponto de partida ser positivo - com altos níveis de emprego e com uma boa execução orçamental -, Pedro Siza Vieira não esquece as circunstâncias e pede prudência, sobretudo tendo em conta as medidas anunciadas recentemente, no parlamento, pelo primeiro-ministro Luís Montenegro.
"É uma circunstância onde convém ser prudente e onde o governo, ao ter tomado a decisão de reduzir o IRS com impacto já este ano, e de aumentar transferências para os pensionistas de rendimentos mais baixos, também já este ano, pode estar, de alguma maneira, a sacrificar a disponibilidade que possa ter de continuar um percurso muito significativo de redução de dívida, o que pode ser mais difícil se as coisas se complicarem ao nível europeu", concluiu o ex-ministro Pedro Siza Vieira.