Energia e alterações climáticas ameaçam perspetivas económicas da Ásia-Pacífico
Economistas e representantes políticos alertaram hoje que choques energéticos, fenómenos climáticos extremos, como o El Niño, e crises energéticas, estão a ameaçar as perspetivas de crescimento dos países da Ásia-Pacífico.
Num painel realizado durante as Reuniões Anuais do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, realizadas em Banguecoque, representantes do FMI, de bancos centrais, e de governos da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), alertaram para o impacto que crises energéticas e climáticas podem ter para o crescimento económico da região.
"De todos os fatores que estão atualmente em jogo, diria que a energia é o mais importante", afirmou Krishna Srinivasan, diretor do Departamento da Ásia e do Pacífico do FMI, salientando que o consumo de petróleo e gás representa, em média, cerca de 7% do PIB da ASEAN.
A ameaça surge numa altura em que os governos enfrentam crescente incerteza associada aos conflitos no Médio Oriente, à volatilidade dos preços das matérias-primas e às alterações nas cadeias globais de abastecimento.
A par da segurança energética, os representantes apontaram as alterações climáticas e os fenómenos meteorológicos extremos como fenómeno El Niño como um dos principais riscos para a região, com impacto tanto nos países da ASEAN como nos pequenos Estados insulares do Pacífico.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) avisou este mês que o fenómeno climático El Niño deste ano poderá tornar-se um dos mais fortes em registo desde 1950, com impactos significativos nas temperaturas globais e nos padrões de precipitação.
O governador do Banco Central das Filipinas, Eli Remolona, afirmou que as autoridades monetárias estão a "recorrer cada vez mais ao planeamento por cenários" para lidar com a incerteza, incluindo um "cenário extremo como o El Niño deste ano".
"O efeito do El Niño não será sentido antes do início do próximo ano, em janeiro e fevereiro de 2027, mas já elaborámos vários cenários. Estamos a suster a respiração, mas temos de estar preparados para o pior", afirmou.
Para Scott Morris, vice-presidente para a Ásia Oriental, Sudeste Asiático e Pacífico do Banco Asiático de Desenvolvimento (ADB), a resiliência tornou-se um princípio orientador, com os governos a enfrentarem uma acumulação de riscos que vai desde pandemias a crises energéticas, passando por inundações e outros desastres naturais.
"Um dos desafios que observamos é a necessidade de responder simultaneamente a uma diversidade de choques", afirmou.
A curto prazo, os países necessitam de reforçar as reservas e a segurança do abastecimento de combustível, mas a longo prazo, defendeu, é essencial acelerar os investimentos em energias renováveis e em fontes de energia produzidas localmente.
"A medida mais importante para responder a este desafio no longo prazo é acelerar os planos de investimento em fornecimento energético que não dependam tanto de geografias distantes", afirmou.
Ao mesmo tempo, o vice-ministro japonês das Finanças para os Assuntos Internacionais, Atsushi Mimura, considerou que a prioridade imediata passa por combater a inflação e mitigar os efeitos dos choques energéticos através de medidas "direcionadas, adaptadas e temporárias".
Relativamente às alterações climáticas, defendeu um reforço do investimento em infraestruturas resilientes a desastres naturais, numa altura em que cheias, tempestades e outros fenómenos extremos se tornam mais frequentes e severos.
Mimura identificou aquilo que chamou os quatro desafios principais da região: envelhecimento demográfico, polarização geopolítica, alterações climáticas e digitalização.
"Nos países onde a população está a envelhecer, como a Tailândia e Singapura, será necessário reforçar sistemas de pensões e proteção social. Nas economias mais jovens, como as Filipinas, a prioridade deverá passar pelo investimento na educação e na qualificação da mão-de-obra", destacou.