Enfermeiros em luta contra discriminação salarial

Os enfermeiros iniciam esta tarde mais uma greve que irá durar até às 8 horas da próxima quinta-feira. Com os serviços mínimos garantidos em todas as unidades de urgência, estes quatro dias vão servir para os enfermeiros tentarem convencer o Governo a alterar o que consideram ser a discriminação salarial de que são alvo. O Ministério da Saúde já lamentou que a paralisação se faça em pleno processo negocial.

RTP /
Enfermeiros regressam esta tarde à greve Miguel A. Lopes/Lusa

Uma nova greve, esta de quatro dias, por parte dos enfermeiros foi a forma de luta encontrada por estes profissionais de saúde contra a discriminação que dizem ser alvo por parte do Governo, essencialmente no que se refere às tabelas salariais.

Esta é já a segunda greve realizada este ano e da qual, segundo refere o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses, é esperada uma "fortíssima adesão" a mais esta paralisação que terá início às 14 horas de hoje e termo às 8 horas de quinta-feira.

Apesar de contemplar mais dias, esta greve durará na prática menos tempo do que a anterior realizada em Janeiro e terá menos impacto nos centros de saúde, por exemplo, segundo já referiam dirigentes do sindicato dos enfermeiros.

Recorde-se que na anterior paralisação os enfermeiros estiveram em greve três dias completos, enquanto agora a greve começa no turno da tarde, o que leva a que nos centros de saúde quase todos os utente sejam atendidos, e acaba na manhã da próxima quinta-feira o que obriga todos os enfermeiros a trabalhar nesse dia.

Na origem da greve continua a estar a chamada discriminação de que são alvo por parte do Ministério da Saúde os enfermeiros em relação à tabela salarial, isto em relação a outras classes profissionais.

A sindicalista Guadalupe Simões recorda que o "sentimento de discriminação que os enfermeiros sentem por parte do Ministério da Saúde" é sentido quando a tutela "relega os enfermeiros para licenciados de segunda", ao não serem pagos conforme a lei.

Segundo aquela representante dos enfermeiros "se um nutricionista ou um advogado ou um outro profissional qualquer fosse admitido para um hospital seria por um mínimo de 1200 euros, enquanto que para os enfermeiros, que já são licenciados, o Ministério da Saúde tem uma proposta de manter 1020 euros até 2013".

Com esta greve espera-se que os serviços mais afectados sejam os das consultas externas, nos centros de saúde na terça e quarta-feira e ainda nos blocos operatórios.

Para já o Ministério da Saúde limita-se a referir que a tutela respeita o direito à greve dos enfermeiros, mas lamenta que este protesto decorra numa altura em que as duas partes se encontram em negociações.

Outras reivindicações dos enfermeiros

Mas os enfermeiros não lutam apenas por melhores salários aquando da entrada na carreira. José Carlos Martins, do sindicato dos enfermeiros, já explicou esta manhã na RTP que a greve tem ainda outros objectivos.

"Nós temos cerca de cinco mil enfermeiros em vínculo precário, jovens profissionais que queremos ver nas instituições em que estão a trabalhar de forma permanente e que são necessários para o seu normal e regular funcionamento para prestar permanentemente cuidados às pessoas. Nós temos um grau de carência nos serviços que leva vários enfermeiros a fazer milhares de horas extraordinárias, inclusivamente pode pôr em causa a própria reforma das unidades de saúde primárias se não se admitir rapidamente mais enfermeiros para os centros de saúde", referiu.

José Carlos Martins fala ainda do problema com o INEM e da falta de enfermeiros nos CODUs.

"Nesta altura estão a excluir os enfermeiros do INEM onde a partir do dia 1 de Abril pode haver problemas de qualidade no atendimento e no acompanhamento aos acidentes porque, por exemplo, a partir do próximo dia 1 não temos enfermeiros nos CODUs. Ora temos uma panóplia de matérias relacionadas com as condições de trabalho e com a sua carreira que de facto leva os enfermeiros a sinalizar o seu profundo descontentamento com esta greve de quatro dias", esclareceu.

Ordem justifica a greveTeresa Oliveira, vice-presidente da Ordem dos Enfermeiros, disse esta manhã na RTP que estes profissionais de saúde têm razões suficientes para a greve que hoje começa.

"Os enfermeiros têm razões fundamentadas para a manifestação deste descontentamento. A qualificação, o grande investimento na sua qualificação que vem desde há 11 anos, com uma formação inicial de licenciatura cuidada, com uma qualificação cada vez mais capaz de responder à complexificação dos cuidados, às necessidades de saúde das populações, obrigam no fundo a que o reconhecimento que é da ordem do discurso passe a ser também de facto no modo como são satisfeitos e são remunerados", explicou Teresa Oliveira.

No mesmo modo a vice-presidente da Ordem dos Enfermeiros não deixou de salientar o facto desta classe profissional trabalhar em média muito acima do que seria normal.

"Os enfermeiros trabalham em condições de grande carência de recursos, trabalham com taxas de utilização em média acima dos 153 por cento, quer dizer que cada enfermeiro em termos de horas que são necessárias para os cidadãos trabalham mais 50 por cento em média", esclareceu.

Governo pede três anos aos enfermeirosDa parte do Governo, o secretário de Estado Adjunto da Saúde, Manuel Pizarro, explicou esta manhã na RTP, que o esforço financeiro que está a ser feito pelo Estado tem de ser compreendido pelos enfermeiros.

"Nós propusemos aos enfermeiros um aumento de quase 20 por cento de aumento do seu salário de entrada na Administração Pública, de cerca de 1000 euros para 1200 euros. Propusemos que esse aumento fosse faseado nos próximos três anos, 2010, 2011 e 2012. Nas actuais circunstâncias financeiras do país, que os portugueses conhecem bem, e os enfermeiros também conhecem bem, acho que isto é um enorme esforço que estamos a fazer", explicou Manuel Pizarro.

Confrontado com o facto dos enfermeiros exigirem este aumento de uma só vez e não faseado, o secretário de Estado Adjunto da Saúde, lembrou que esta discriminação feita aos enfermeiros já existe há mais de uma década e que o Governo se compromete a acabar com ela em três anos.

"Esta discriminação existe há mais de uma década, nós propusemos com clareza corrigi-la em três anos, o que nas actuais circunstâncias é um enorme esforço financeiro e orçamental. Estamos a falar em quase 20 por cento de aumento salarial de entrada na carreira de enfermeiro. É um esforço muito significativo que precisa de ser compreendido também por parte dos enfermeiros", esclareceu.

PUB