Escalada histórica dos juros da dívida aperta garrote em torno de Espanha

Acentua-se a pressão sobre Espanha nos mercados, que continuam a refletir as ondas de choque do pedido de resgate financeiro da região de Valência ao Governo de Madrid, a que se soma agora o receio agravado de que a Grécia abandone a breve trecho a Zona Euro. Os juros da dívida espanhola com maturidade a dez anos ultrapassaram hoje de manhã a fasquia dos 7,5 por cento e o prémio de risco face às obrigações alemãs tocou pela primeira vez os 640 pontos base. Depois de diagnosticar aos mercados um estado de “irracionalidade”, o ministro espanhol da Economia, Luis de Guindos, voltou a excluir um resgate integral do país, além da banca.

RTP /
As últimas estimativas do Executivo de Rajoy apontam para que a recessão perdure em 2013, com o Produto Interno Bruto a cair 0,5 por cento e a taxa de desemprego a ficar acima de 24 por cento J.J. Guillen, EPA

“Nem um momento para respirar”, escrevia esta manhã a edição online do jornal espanhol El País. São ainda os reflexos do pedido de assistência financeira formulado na passada sexta-feira pela Comunidade Valenciana que estão a alimentar a escalada imparável dos juros da dívida soberana de Espanha. Mas também a notícia, avançada durante o fim de semana pelo semanário alemão Der Spiegel, de que o Fundo Monetário Internacional pode estar prestes a fechar a torneira do financiamento à Grécia. O que poderia empurrar o Governo de Atenas para uma declaração de falência dentro de um mês.ContágioCom a escalada dos juros cresce a incerteza sobre a capacidade espanhola de evitar um resgate completo das suas finanças públicas. O mesmo acontece com Itália.

No caso italiano, os juros da dívida estavam esta manhã a crescer em todos os prazos – a dois anos atingiam os 4,620 por cento e a três anos os 5,342 por cento.

Já Portugal via os juros da dívida soberana a cinco e a dez anos subirem para os 10,176 por cento e 10,764 por cento, respetivamente. Na maturidade a dois anos, os juros aliviavam de 7,6 (valor de sexta-feira) para 7,586 por cento.


Os temores agudizaram-se com as últimas tomadas de posição de Berlim. O Governo alemão deixou claro, uma vez mais, que Atenas só poderá ter acesso a mais parcelas do seu pacote de resgate financeiro se concretizar as metas de redução do défice das contas públicas. Uma postura resumida pelo ministro alemão da Economia. Em entrevista à estação televisiva pública ARD, o liberal Phillip Rösler, que é também vice-chanceler, conjeturou no domingo que uma Zona Euro sem os gregos constitui um quadro que “deixou de ser assustador há muito tempo”.

A região de Valência pediu assistência financeira no mesmo dia em que os ministros das Finanças dos países da moeda única deram luz verde ao programa de resgate da banca espanhola, num montante de 100 mil milhões de euros. Sem que isso tivesse qualquer feito apaziguador nos mercados. Os sinais de alarme dispararam logo na sexta-feira. Porque as sessões ainda não tinham terminado quando a Comunidade Valenciana confirmou o pedido, por via do mecanismo de liquidez para as regiões autónomas aprovado a 13 de julho em Conselho de Ministros.

Assim, no termo da semana passada, o prémio de risco que os investidores impõem às obrigações espanholas a dez anos, face aos títulos alemães, atingia já os 610 pontos base. Esta segunda-feira atingiram os 640 pontos, o que acontece pela primeira vez desde que existe o euro.

Por outro lado, a taxa de juro da dívida a dez anos superou a fronteira dos 7,5 por cento, no que constitui também uma marca histórica desde a criação da moeda única. O Governo do conservador Mariano Rajoy tem reiterado, nas últimas semanas, que os juros acima de sete por cento são insuportáveis a médio prazo.
Alemanha advoga “independência do BCE”
O ministro alemão da Economia acrescentou outro ingrediente de tensão ao caldo cada vez mais quente do abalo financeiro espanhol, ao colocar-se ao lado do Banco Central Europeu na recusa de um papel mais interventivo junto dos mercados secundários. “Na independência do nosso BCE não se toca”, disse Phillip Rösler na entrevista à ARD, mostrando-se contrário à corrente que defende a compra de dívida espanhola por aquela instituição. A vocação do BCE, insistiu o governante alemão, não é “resolver estes assuntos”, mas antes “velar pela estabilidade de preços e pela situação monetária”.
“Irracionalidade”À entrada para uma sessão no Congresso dos Deputados dedicada ao programa de assistência para a banca, o ministro espanhol da Economia e da Competitividade procurou hoje assegurar que não haverá um resgate global a Espanha.

Em declarações aos jornalistas, Luis de Guindos falou de uma “situação de irracionalidade e extremo nervosismo” nos mercados que “não tem que ser abordada pelo Governo”.

O Executivo de Mariano Rajoy, insistiu o ministro espanhol, “fez tudo o que tinha de fazer” no domínio da consolidação orçamental. De Guindos voltou também a apelar ao BCE para que ajude a encontrar uma estratégia de saída da crise.

Rösler preferiu enfatizar que o Governo espanhol está a implementar a receita certa para se libertar das amarras da crise. Leia-se austeridade.

O próprio presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, reafirmara um dia antes, nas páginas do jornal francês Le Monde, que a “função” da entidade “consiste em assegurar a estabilidade dos preços e contribuir para a estabilidade do sistema financeiro com uma completa independência”.

As últimas estimativas do Executivo de Rajoy apontam para que a recessão perdure em 2013, com o Produto Interno Bruto a cair 0,5 por cento e a taxa de desemprego a ficar acima de 24 por cento da população ativa. No sábado, reconhecendo que a situação do seu país é cada vez mais “insustentável”, o ministro espanhol dos Negócios Estrangeiros, José Manuel García-Margallo, referiu-se ao BCE como um banco “clandestino” que “não está a fazer nada para parar o incêndio da dívida pública”.

Na antecâmara de uma reunião com 11 ministros europeus do “Grupo de Berlim”, em Palma de Maiorca, García-Margallo lembraria ainda que, no ano passado, o impacto dos juros nos cofres espanhóis era de 28 mil milhões de euros. Para indicar que, em 2013, chegará aos 38 mil milhões.

“Todo o dinheiro que destinamos ao pagamento de juros é dinheiro que não temos para prestar os serviços essenciais que constituem a imagem de marca da economia social de mercado, ou para evitar uma recessão e impulsionar o crescimento e dar emprego à nossa gente”, lamentou o chefe da diplomacia espanhola, em declarações citadas pelo diário El Mundo.
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