Estudo mostra que crises são mais frequentes e mais perigosas desde há dez anos

Os mercados bolsistas estão a viver, há uma década, num regime de elevada especulação, com crises mais frequentes e perigosas, revela um estudo do economista Francisco Louçã e da matemática Tanya de Araújo, que será publicado em Setembro.

© 2007 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /
A agitação dos mercados bolsistas, causada pelos problemas do segmento de crédito hipotecário de alto risco dos EUA, esteve esta semana a marcar as sessões EPA

O estudo analisa a dinâmica das acções das 230 empresas do Standard & Poor's 500 que integraram este índice durante os últimos 33 anos e avalia os 13 grandes colapsos dos mercados financeiros durante este período, aplicando uma metodologia criada pelos autores, utilizando técnicas da física para análise de terramotos.

Os autores criaram uma escala para medir a intensidade das quebras no mercado bolsista, que tem como ponto mais alto a chamada "segunda-feira negra" de 19 de Outubro de 1987, na qual o Dow Jones Industrial Average (DJIA) perdeu mais de 22 por cento em cerca de 6 horas, com as empresas a perderem 500 mil milhões de dólares do seu valor.

Esta "segunda-feira negra", que representa um abalo de 8 na escala criada por Louçã e Araújo, foi um crash potenciado por ordens automáticas de venda, um fenómeno até aí desconhecido, repercutiu-se intensamente nas bolsas europeias e asiáticas.

Para termo de comparação, quando a bolsa de Nova Iorque abriu a 17 de Setembro de 2001, depois de ter estado encerrada desde os atentados terroristas de 11 de Setembro, que provocaram a derrocada das torres-gémeas do World Trade Center, o DJIA perdeu 684 pontos, o que traduz uma quebra de 7,1 por cento.

No espaço de uma semana, o principal índice da bolsa nova iorquina tinha perdido 14,3 por cento, num abalo registado na escala de Louçã e Araújo como de grau 1,65.

Os dois autores, que são professores do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), concluem deste estudo que os mercados financeiros mudaram nos últimos 10 anos, desde Outubro de 1997, quando a crise na Ásia passou, rapidamente, da instabilidade nos mercados cambiais para a bolsa, provocando uma reacção em cadeia que levou a que a New York Stock Exchange suspendesse a compra e venda de títulos durante a sessão, pela primeira vez na sua história.

Este crash, considerado por muitos como pequeno, porque a recuperação foi rápida, tem um grau de 1,73 pontos na escala de Louçã e Araújo, mas os autores consideram que os mercados financeiros mudaram a partir daqui.

"Desde há 10 anos que vivemos um regime de especulação elevadíssima, contrária à própria economia, e os reflexos (das quebras dos mercados accionistas) são mais fortes, porque existe uma memória de mais longo prazo", explicou Francisco Louçã, à agência Lusa.

Desde 1997, as quebras nos mercados sucedem-se a um ritmo mais acelerado: dos 13 grandes colapsos analisados pelos autores, 8 deles registaram-se na última década e encontram-se, todos, entre os 10 maiores abalos sentidos.

"É como se houvesse pequenos terramotos constantes", disse Louçã.

"Existe uma maior desconfiança, porque a memória é mais longa, o que faz com que os efeitos (das crises) sejam mais fortes", explica, concordando que os novos produtos introduzidos nos mercados financeiros ajudam a partilhar o risco das aplicações, mas também fazem com que os efeitos de uma crise num determinado segmento se propague aos restantes.

"A conclusão mais importante do artigo é que, nos últimos 10 anos, a bolsa norte-americana passou a viver num período de intensa turbulência, tornando mais graves os colapsos como o que actualmente começa a verificar-se e que se pode ampliar dado o carácter insustentável da especulação com créditos duvidosos e com a bolha de especulação imobiliária nos EUA", refere.

A agitação dos mercados bolsistas, causada pelos problemas do segmento de crédito hipotecário de alto risco dos EUA, esteve esta semana a marcar as sessões, depois de várias intervenções de bancos centrais no mercado monetário e do crescimento dos receios de extensão desses problemas ao conjunto das economias.

Esta crise afectou também Portugal, com o principal índice da Euronext Lisboa, PSI 20, a cair 4,5 por cento no conjunto da semana, com a maior descida da Europa e a maior queda desde Maio de 2006.

Desde início de Fevereiro que se sabe que algumas gestoras de fundos e outras instituições financeiras norte-americanas estão com problemas no nível de incumprimento do crédito imobiliário de alto risco.

Só que a crise parece ter alastrado ao resto do mundo, com várias instituições financeiras a anunciarem a suspensão do resgate de alguns fundos de investimento e algumas dificuldades decorrentes de investimento feitos nesse segmento de mercado dos EUA.

Esta semana, quando os mercados financeiros começaram a ficar mais agitados com os problemas do mercado de crédito hipotecário de alto risco dos EUA e com a sua propagação na Europa e no resto do mundo, o Banco Central Europeu (BCE) decidiu injectar dinheiro na economia, dizendo que emprestava tudo o que os bancos quisessem a 4 por cento, abaixo da taxas de mercado a que uns bancos estavam a emprestar a outros.

Vários outros bancos centrais também fizerem intervenções no mercado e sexta-feira a Reserva Federal norte-americana baixou a taxa de desconto a que empresta dinheiro aos bancos, em 0,5 pontos percentuais.

"A crise actual é expressão desta vulnerabilidade sísmica", afirma Francisco Louçã.
PUB