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Eurogrupo. "Consequências da guerra no Médio Oriente permanecerão por longo período"

Eurogrupo. "Consequências da guerra no Médio Oriente permanecerão por longo período"

Os ministros das Finanças da Zona Euro estiveram reunidos por videoconferência e apresentaram cenários para os preços da energia, inflação e crescimento.

Andrea Neves - correspondente da Antena 1 em Bruxelas /
Olivier Hoslet - EPA

Os ministros das Finanças do bloco da moeda única admitiram esta sexta-feira que, mesmo que guerra no Irão terminasse agora, os efeitos iam sentir-se por todo este ano.

Não são cenários animadores para as economias da moeda única e por isso há medidas que precisam de ser tomadas e que a comissão promete apresentar.

Pierre Gramegna, o diretor-geral do Mecanismo Europeu de Estabilidade, refere que, ”mesmo que o conflito terminasse amanhã, as consequências desta guerra que se espalhou por todo o Médio Oriente permanecerão connosco durante um longo período”.

Prevê-se que os preços do gás e do petróleo se mantenham elevados ao longo do ano, e isso reflete-se na forma como os mercados percecionam a evolução da inflação e também na perspetiva mais ampla sobre essa inflação. Os mercados preveem uma inflação mais elevada ao longo do ano, mas ainda esperam o regresso ao nível dos 2% no próximo ano. Em termos de crescimento, os mercados consideram também que o crescimento na zona euro será inferior a 1% devido à guerra em curso. E, por último, mas não menos importante, os mercados esperam que as taxas de juro das obrigações do Estado sejam mais elevadas, o que, por sua vez, significa custos de financiamento mais elevados para os governos”.

O presidente do Eurogrupo chegou igualmente à conferência de imprensa a reforçar os sinais de alerta.

Kyriakos Pierrakakis salientou que “um mês após o início do conflito, os seus efeitos já se começam a refletir na economia real. As empresas estão a sentir o impacto nos seus custos operacionais e as famílias, nas suas faturas de energia. Isto gera pressões inflacionistas e riscos significativos de menor crescimento em toda a Europa. A questão fundamental é a duração e a intensidade da crise, uma vez que estes fatores determinarão a dimensão do impacto económico. A incerteza continua elevada e a Europa deve manter-se alerta e pronta para responder quando necessário”.

É agora claro que a escala, a gravidade e o impacto da guerra aumentaram desde o nosso último encontro, há pouco mais de duas semanas. O Estreito de Ormuz foi transformado numa zona de guerra e as infraestruturas energéticas continuam a ser alvo de ataques” referiu o Comissário com a pasta das finanças. “Como resultado, os preços da energia dispararam. O petróleo Brent tem sido consistentemente negociado acima dos 100 dólares por barril nas últimas duas semanas”.

Também o Comissário da Economia mantém o tom de precaução.“Naturalmente, o impacto total na economia europeia dependerá da duração, do alcance e da intensidade do conflito. Por ora, as perspetivas estão envoltas em profunda incerteza. Mas é evidente que corremos o risco de um choque de estagflação, ou seja, uma situação em que um crescimento mais lento coincide com uma inflação mais elevadas. Isto mantém-se mesmo que as interrupções no fornecimento de energia sejam relativamente breves”, declarou Valdis Dombrovskis.

"Neste cenário, a nossa análise sugere que o crescimento da UE em 2026 poderá ser cerca de 0,4 pontos percentuais inferior ao projetado na nossa previsão económica de outono e a inflação poderá ser até um ponto percentual superior se as perturbações se revelarem mais substanciais e duradouras. As consequências negativas para o crescimento seriam ainda maiores: o crescimento poderá ser até 0,6 pontos percentuais inferior tanto em 2026 como em 2027. Além disso, outros fatores podem amplificar ainda mais o impacto económico negativo da crise que acabo de descrever”, prosseguiu o comissário.
Uma Europa mais bem preparada
Os líderes do Eurogrupo e do Mecanismo Europeu de Estabilidade admitem que a União está agora mais bem preparada do que quando começou a guerra na Ucrânia.

“Felizmente, em comparação com o choque energético de 2022, as energias renováveis estão em maior destaque em muitos países”, reforça Pierre Gramegna, o Diretor Geral do Mecanismo Europeu de Estabilidade.“Foi referido, e bem, que países como Espanha e Portugal, que aumentaram significativamente a produção de energias renováveis, estão agora menos afetados pelo choque energético do que da última vez”, afirmou Pierre Gramegna.


“Gostaria de acrescentar que evitar medidas que aumentem o consumo de combustíveis fósseis é essencial. É também importante não inverter o progresso alcançado até à data em direção às energias renováveis”. É o que defende o Diretor Geral do Mecanismo que participou nesta videoconferência desde o Luxemburgo.

Também o presidente do Eurogrupo refere esta realidade, mas chama a atenção para a necessidade de manter as políticas de descarbonização.

A Europa está hoje mais bem preparada do que em 2022, durante a crise energética anterior. Reduziu a sua dependência energética, reforçou a sua infraestrutura energética, diversificou as suas fontes de energia e, sobretudo, adquiriu experiência na gestão de crises deste tipo. Isto significa que agora podemos responder de forma mais rápida, coesa e eficaz. Ao mesmo tempo, devemos agir com seriedade e responsabilidade, mantendo-nos coerentes com os compromissos que assumimos, porque, em última análise, é isso que nos permite apoiar os nossos cidadãos em tempos difíceis. As nossas escolhas devem refletir equilíbrio e responsabilidade”, disse Kyriakos Pierrakakis.
Medidas de apoio direcionadas e temporárias
O diretor do Mecanismo Europeu de Estabilidade chama atenção para o facto de, “na Europa, estamos bem equipados para enfrentar estes desafios, incluindo os instrumentos financeiros do Mecanismo de Estabilização da Procura disponíveis no âmbito do atual tratado do quadro fiscal ajuda a manter a confiança do mercado neste contexto”.

Mas “os mercados podem mudar rapidamente se as consequências da interrupção do fornecimento de energia se tornarem mais graves e os governos afrouxarem demasiado a política orçamental”, refere Gramegna.

É por isso que o Mecanismo apoia o apelo da Comissão para medidas de apoio temporárias e direcionadas para apoiar as famílias vulneráveis pode ser útil.

Foi o que referiu o presidente do Eurogrupo.“As medidas tomadas durante este período devem ser direcionadas, justas e eficazes, com prioridade para as famílias e empresas mais vulneráveis. Devem ser implementadas rapidamente, mas também manter-se temporárias, de forma a fazer face à crise sem criar novos problemas de maior no futuro. A transição energética e a independência energética da Europa constituem objetivos estratégicos, e nenhuma crise de curto prazo nos desviará deles. Pelo contrário, esta crise realça a importância de investir ainda mais em infraestruturas de energia limpa e na economia energética europeia”, afirmou Kyriakos Pierrakakis.

É também o que defende o diretor-geral do Mecanismo Europeu de Estabilidade.

“Mas as finanças públicas precisam de se manter saudáveis. A cláusula geral de escape proporcionou uma flexibilidade importante no passado, mas a utilização de mais isenções para lidar com as pressões atuais pode dificultar o regresso às regras fiscais normais mais tarde. Este período exige uma ação cuidada, coordenada e orientada para o futuro”.

Mais específico foi o comissário da Economia, que referiu que a Comissão vai dar resposta, em breve, ao pedido dos chefes de Estado e de governo que mandataram o executivo europeu para apresentar um conjunto de medidas temporárias específicas para fazer face ao aumento dos preços da energia”.“A Comissão apresentará propostas para impor taxas de imposto mais baixas sobre a eletricidade e garantir que a eletricidade é menos tributada do que os combustíveis fósseis, melhorar a produtividade da infraestrutura da rede e modernizar o sistema de comércio de emissões, incluindo a atualização dos parâmetros de referência para as alocações gratuitas e o aumento da capacidade de estabilização do mercado, para reduzir a volatilidade dos preços”, apontou Valdis Dombrovskis.

A Comissão está também pronta a trabalhar em estreita colaboração com os Estados-membros para conceber medidas políticas a nível nacional para mitigar o impacto do aumento dos preços da energia.

“Tivemos hoje uma boa discussão sobre este assunto. Qualquer resposta política nacional eficaz para proteger a nossa economia e as nossas pessoas deve estar alinhada com determinados princípios fundamentais. Estas incluem a necessidade de serem específicas, temporárias, não aumentarem a procura agregada de petróleo e gás e serem coerente com a necessidade de continuar a descarbonizar o nosso sistema energético”, realçou o comissário.

Dombrovskis deixa um aviso: “É evidente que as respostas políticas podem ter implicações fiscais graves. E a nossa margem de manobra é mais limitada do que antes, dados os choques anteriores e a necessidade urgente de gastos adicionais em defesa".

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