"Europa foi construída sobre pilares desequilibrados e inconsistentes"
Lisboa, 12 nov (Lusa) - O Governador do Banco de Portugal (BdP) afirmou hoje que a atual crise "demonstrou que a União Europeia foi construída sobre pilares desequilibrados e inconsistentes".
Carlos Costa, que participou num almoço entre empresários alemães e portugueses no âmbito da visita da chanceler Angela Merkel a Portugal, acrescentou que foram estes pilares que provocaram que "toda a estrutura [da Europa] se tornasse instável e vulnerável".
Para o governador do BdP, "o modelo de governação da zona euro foi baseado num quarteto inconsistente", de acordo o qual é proibido a um Estado-Membro assumir as dívidas de outro, não haver mecanismos para a reestruturação da dívida ordenada, não haver a possibilidade de alguém deixar o euro e, por fim, "em contraste com unificação monetária", os Estados-Membros manterem a responsabilidade para a política orçamental.
Carlos Costa disse também que foi esquecido um outro pilar: o da união bancária, que esteve "ausente ou ignorada".
Mas o pilar mais importante que a União Europeia esqueceu, segundo o governador, foi "um mecanismo de recuo credível para fornecer liquidez aos países da zona euro que não são capazes de obter financiamento no mercado devido a razões ligadas ao próprio mercado e não por razões de solvência".
Perante estes desafios, Carlos Costa considerou que existem atualmente quatro principais objetivos a concretizar rapidamente: "A união bancária, a união orçamental, o reforço da integração económica e maior legitimidade democrática e responsabilidade" dos governantes.
O Governador terminou a sua intervenção afirmando que a Europa está a "jogar um jogo que pode ser de soma positiva, onde todos os Estados-Membros estarão melhor, ou um jogo de soma negativa, onde todos nós vamos perder".
A chanceler alemã está hoje em Lisboa para uma visita oficial de cinco horas num momento em que internamente cresce a contestação ao programa assinado com a `troika`, a que Merkel diz manter-se "fiel".
Esta é a primeira vez que a chefe do Governo da Alemanha visita oficialmente Portugal e reunir-se-á com o Presidente da República, com o primeiro-ministro e o ministro dos Negócios Estrangeiros e com empresários dos dois países.
Fontes diplomáticas portuguesas, citadas pela agência EFE, afirmaram que a deslocação de Merkel é vista como um "sinal de esperança" numa conjuntura de crise.
Segundo disse a própria numa entrevista à RTP, esta visita é "uma contribuição" para mostrar que a Alemanha "quer ajudar" e "para ver o que se pode melhorar na cooperação entre empresas para gerar mais empregos" e para que "haja força económica em Portugal".