Falhas de proteção e de manutenção explicam rutura do dique do Mondego
O não funcionamento ou funcionamento incompleto dos órgãos de proteção originou a rutura do dique do rio Mondego, em Coimbra, concluiu o grupo de trabalho da Universidade de Coimbra (UC) que analisou as cheias de fevereiro.
As conclusões preliminares da análise realizada pelo grupo de trabalho liderado pelo antigo reitor da UC Fernando Seabra Santos foram hoje apresentadas no colóquio "As Cheias do Mondego", no Departamento de Engenharia Civil da UC.
Segundo um documento a que a agência Lusa teve acesso, a primeira e mais importante razão que explica a rutura do dique dos Casais, na margem direita do Mondego, "é o não funcionamento, ou funcionamento incompleto, dos órgãos de proteção".
"Dos três diques-sifão instalados, apenas um funcionou em pleno".
A segunda razão é "a colmatação parcial da secção, por efeito dos troncos de árvores acumulados nos vinte pilares da ponte da A1 [Autoestrada 1]".
"Embora seja difícil avaliar este efeito, parece razoável estimar que, se a secção estivesse livre, o nível de escoamento teria sido, no pico da cheia, cerca de 30 cm [centímetros] inferior ao verificado, o que teria evitado o galgamento", observou o grupo.
A terceira razão "é a floresta que se deixou crescer nos taludes interiores dos diques e nas galenas (plataformas entre o leito menor e o leito maior), que os fragilizam estruturalmente, que condenam a impermeabilização, aumentam a rugosidade das paredes e diminuem a capacidade de escoamento das secções".
"Bastaria que um destes três aspetos tivesse sido acautelado para que a rutura tivesse sido evitada", apontaram.
As conclusões, organizadas sob a forma de perguntas e respostas, indicaram ainda como causa mais provável para o não funcionamento do sifão "a degradação do betão que compromete a estanquicidade ao ar e impede a instalação de uma pressão negativa no interior", que só a realização de testes pode comprovar.
"A ser verdadeira, a reparação é muito fácil", adiantou.
Para os investigadores, existem "fundadas razões para suspeitar que o dique está fragilizado" na secção correspondente ao viaduto da A1, começando por referir que "são visíveis as bocas dos tubos de drenagem pluvial da autoestrada a verterem diretamente sobre a estrutura de aterro do dique", desde 1982, quando o troço entrou em funcionamento.
Por outro lado, salientaram, o dique principal foi, em ambas as margens, destruído naquela secção para a construção do viaduto, e depois reconstruído, assinalando-se que "é sintomático" que a rutura de 2001, na margem esquerda, se tenha iniciado sob a ponte, e a de 2026, na margem direita, tenha ocorrido também sob a ponte.
"Por outro lado, estão à vista deficiências técnicas graves nas obras recentemente executadas que põem em causa a impermeabilização do dique".
Para evitar futuras ruturas, o grupo de trabalho entendeu que não é necessário repensar toda a estratégia da obra, embora "algumas pequenas alterações possam ser introduzidas".
"O que há a fazer é apenas reparar os estragos, executar o projetado, elaborar e respeitar um programa de manutenção da infraestrutura e criar uma equipa dedicada com vontade de o concretizar".
O grupo de trabalho integra os académicos Alfeu Sá Marques, Cidália Fonte, Isabel Pedroso de Lima, Nuno Simões, Paulo da Venda Oliveira, Ricardo Martins e Rita Fernandes de Carvalho.
A sessão de abertura do colóquio contou hoje com participação dos vice-reitores da UC para a Cultura, Comunicação e Ciência Aberta, Delfim Leão, e para o Património, Edificado e Turismo, Alfredo Dias.
Delfim Leão disse que as conclusões desta análise serão publicadas em livro, "em setembro/outubro", para "dar aos decisores políticos, mas também à população em geral, informação trabalhada, densificada do ponto vista científico".