Farmácia contesta preços de medicamentos mais baixos que pastilhas elásticas

Redação, 28 nov (Lusa) -- Uma farmácia de Guimarães encontrou uma forma original de contestar a baixa de preços dos medicamentos, enviando cartas às autoridades portuguesas e europeias onde demonstra que há comprimidos mais baratos do que pastilhas elásticas.

Lusa /

"A embalagem de pastilhas elásticas que tem na sua mão custou 68 cêntimos, o que se produz num preço de venda ao público de 6,8 cêntimos por pastilha. A embalagem do popular medicamento para o colesterol que também recebeu custa 2,54 euros, o que se traduz num preço de 4,2 cêntimos por comprimido", assim começa a carta redigida por Fernando Monteiro, dono da Farmácia Barbosa.

Descontente com a descida dos medicamentos, e consequente quebra nas margens e falta de sustentabilidade das farmácias, o farmacêutico quis demonstrar às autoridades nacionais e internacionais como "o medicamento para o colesterol custa menos 38% que uma pastilha elástica".

Na carta, à qual juntou uma embalagem de 60 comprimidos de `Sinvastatina Alter 20 mg` e uma de 10 pastilhas elásticas `Trident` de morango, Fernando Monteiro lembra que "ao contrário das pastilhas elásticas, os medicamentos exigem longos anos de desenvolvimento, ensaios clínicos, ensaios de efeitos secundários" para além de "recursos humanos com formação superior" e ainda "farmácias de serviço permanente".

A ideia de comparar comprimidos com pastilhas elásticas resultou de uma "simples ida ao supermercado", relatou à Lusa o também sócio gerente da farmácia que atualmente trabalha com "margens negativas" e considera não ser viável suportar os custos daquele estabelecimento com os atuais preços dos medicamentos.

Trabalhando "com uma margem sobre os preços", as farmácias não estão a conseguir fazer fase a uma "descida tão grande de preços" -- o `Sinvastatina Alter` custava 28 euros há dois anos -- e "vão fechar", adiantou mesmo o farmacêutico que até já pondera mudar de ofício.

Também os grossistas "estão com dificuldades em pagar à indústria", razão pela qual os medicamentos começam a escassear, havendo mesmo alguns que "são muito baratos e não compensa fabricar", frisou.

Na própria carta (enviada a entidades como o Presidente da República, primeiro ministro, secretário de Estado da Saúde, grupos parlamentares, INFARMED e membros da troika), Fernando Monteiro conta como "dos 95 medicamentos" pedidos a uma empresa logística grossista de medicamentos, só lhe foram fornecidos "20%".

Para o também diretor técnico, as farmácias deviam "ser remuneradas por ato farmacêutico", à semelhança do que acontece "na Suíça e na Finlândia", a fim de não ficarem dependentes do preço dos medicamentos.

A rematar a carta, datada de 23 de novembro e que hoje chegou à redação da Lusa, Fernando Monteiro deixa duas perguntas em forma de "desafio" a serem respondidas pelos destinatários por e-mail ou fax: "A política do medicamento em Portugal está distorcida e insustentável" e "A política do medicamento em Portugal está no caminho certo".

Até ao momento, o farmacêutico não recebeu qualquer resposta.

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