FMI apela a solução amigável para evitar tarifas retaliatórias

O risco de uma nova escalada nas tensões comerciais, devido às divergências entre os EUA e a União Europeia relativamente à Gronelândia, teria um impacto significativo no crescimento, alertou hoje o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Lusa /

Entrar numa fase de retaliação tarifária teria um efeito ainda mais adverso sobre a economia, que seria sentido não só pelo impacto direto na atividade económica, mas também pela erosão da confiança, sinalizou o economista-chefe do FMI, Pierre-Olivier Gourinchas, em conferência de imprensa para apresentar a atualização do World Economic Outlook.

Embora tenha evitado fazer recomendações específicas de política comercial quando questionado sobre as recentes tensões entre os Estados Unidos e a União Europeia decorrentes da pressão de Washington para adquirir a Gronelândia, Pierre-Olivier Gourinchas indicou que, em termos gerais, a instituição defende que todas as partes procurem uma solução que mantenha o sistema comercial aberto, preserve regras estáveis e previsíveis e permita que as empresas tomem decisões de investimento e as implementem.

"O ambiente atual não é propício a isso", reconheceu, acrescentando: "Pedimos a todas as partes que encontrem uma solução amigável para a situação", já que numa guerra comercial "não há vencedores", pois o aumento das tarifas prejudicará não apenas o país que as impõe, mas também outros países.

"Se entrarmos numa fase de escalada e políticas de retaliação, como sugeriu a pergunta, isso sem dúvida terá um efeito ainda mais adverso sobre a economia, tanto através de canais diretos quanto por meio da confiança, do investimento e, potencialmente, por meio de uma revisão dos preços de mercado", explicou o economista francês.

Na conferência de imprensa de hoje, o FMI insistiu também que a independência dos bancos centrais é "fundamental" e alertou para o risco ao crescimento económico global caso essa independência enfraqueça, numa alusão à Reserva Federal dos EUA.

"A fragilidade da credibilidade dos bancos centrais, incluindo a Reserva Federal dos EUA, resultando em maiores expectativas de inflação e menor procura global por ativos americanos, pode reduzir o crescimento global em 0,3% em 2026", afirmou o economista-chefe do FMI.

"Infelizmente, as ameaças à independência dos bancos centrais estão a aumentar e devem ser firmemente combatidas", acrescentou Gourinchas, após a intensificação dos ataques do Presidente dos EUA, Donald Trump, ao presidente da Fed, Jerome Powell, nas últimas semanas.

O economista-chefe do FMI enfatizou que essa independência é necessária, principalmente para que os bancos possam responder rapidamente, seja apertando a política monetária caso as pressões da procura aumentem, seja relaxando-a caso as fragilidades do mercado de trabalho persistam ou ocorra uma correção de mercado.

"A independência dos bancos centrais é absolutamente crucial e uma das lições mais importantes dos últimos quarenta anos", enfatizou Gourinchas.

Embora o FMI já tivesse emitido um alerta relativamente à independência dos bancos centrais em outubro, desta vez surge durante crescentes ataques de Trump contra Powell, que denunciou a "pressão" do Governo após saber que o Ministério Público de Washington o está a investigar por supostos custos excessivos na renovação da sede da Fed em Washington.

Trump afirmou que, a partir de maio, indicará um substituto que partilhe a sua visão sobre as taxas de juros, que, na sua opinião, deveriam estar próximas de 0%.

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