FMI junta-se ao Banco Mundial na expectativa de uma recessão global

O Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou esta terça-feira para a possibilidade de a economia global viver uma "grande recessão" em 2009. As previsões da instituição, em linha com o cenário traçado pelo Banco Mundial, colocam África na linha da frente dos continentes mais vulneráveis ao impacto da crise.

RTP /
"Instituições financeiras privadas dos países desenvolvidos receberam mais apoio do que o conjunto do Continente Africano" Stephen Jaffe, EPA

A capital da Tanzânia foi o palco escolhido pelo director do FMI para atalhar o caminho para as próximas previsões da organização. Perante uma plateia de 300 líderes políticos e financeiros do Continente Africano, reunidos em Dar-es-Salam para uma conferência de 48 horas, Dominique Strauss-Kahn antecipou um recuo histórico da economia mundial. E avisou os interlocutores para um quadro de miséria acrescida e conflitos reacendidos pelo combustível da crise internacional.

"O FMI espera que o crescimento global abrande abaixo de zero este ano, o pior desempenho da maior parte das nossas vidas", adiantou o director do FMI, para quem a crise financeira mundial pode ser "quase qualificada, no momento presente, como uma grande recessão".

"A fragilização continuada das instituições financeiras mundiais, combinada com um colapso na confiança de consumidores e empresários, está a deprimir a procura doméstica em todo o globo, enquanto o comércio internacional cai a um ritmo alarmante e os preços das matérias-primas tombam", descreveu Strauss-Khan.

As perspectivas citadas pelo director do FMI vieram sublinhar as últimas projecções do Banco Mundial, que antevêem a primeira contracção da economia global desde a II Grande Guerra e maior quebra das últimas oito décadas nas trocas comerciais.

África enfrenta "impacto severo"

As últimas previsões oficiais do FMI remontam a Janeiro. A organização previa, então, que a economia global registasse em 2009 uma progressão de 0,5 por cento. Dominique Strauss-Khan antecipa-se à publicação das próximas estimativas e aponta para uma "um crescimento mundial que, pela primeira vez em 60 anos, será negativo".

O Continente Africano está, segundo o responsável, na rota da tempestade: "Embora a crise esteja a demorar a chegar às costas de África, todos sabemos que vai chegar e que o seu impacto será severo".

Milhões de africanos enfrentam a ameaça da miséria, alertou o director do FMI. Ao mesmo tempo, os efeitos da crise acabarão por formar o teste capital às capacidades dos edifícios políticos mais frágeis.

"Não se trata apenas de proteger o crescimento económico e os rendimentos das famílias. Trata-se também de conter a ameaça da desordem civil, talvez mesmo da guerra. Diz respeito às pessoas e aos seus futuros", enfatizou Strauss-Khan.

Num eco da intervenção do responsável pelo FMI, o Presidente da Tanzânia, Jakaya Kikwete, admitiu que a crise internacional representa hoje a maior ameaça à estabilidade de África.

"Até ao momento", afirmou o Chefe de Estado anfitrião, "a voz de África nesta situação enervante tem sido silenciada, como testemunhámos em diferentes iniciativas e processos globais que emergiram para responder à crise". A próxima cimeira do G20, marcada para 2 de Abril em Londres, abre uma janela de oportunidade para que os países africanos possam fazer ouvir as suas preocupações, sustentou Kikwete.

Há menos de um ano, a estimativa do FMI para a África subsaariana referia um crescimento económico de 6,7 por cento em 2009. A previsão cai agora para os três por cento.

Pedido do FMI tem apoio da UE

Quinhentos mil milhões de dólares (395 mil milhões de euros) são o montante pedido pelo FMI para o reforço dos fundos de combate à crise. Reunidos esta terça-feira em Bruxelas, os ministros das Finanças da União Europeia mostraram-se favoráveis à duplicação dos recursos da organização de Dominique Strauss-Khan.

A posição da UE consta de um documento que serve de roteiro à política do bloco europeu a defender nas conversações do G20, que terão uma reunião preparatória na próxima sexta-feira.

"Os Estados-membros da UE apoiam uma duplicação dos recursos do FMI e estão preparados para contribuir, se necessário, para um aumento temporário. É essencial que o FMI disponha dos meios financeiros apropriados para auxiliar países particularmente afectados pela actual crise", lê-se na declaração dos 27.

A União Europeia defende, por outro lado, uma partilha justa dos custos do financiamento entre os membros do FMI, colocando a ênfase nos países detentores de grandes reservas, nomeadamente a China.

PUB