Gaspar nega intenção de reajustar programa de resgate financeiro

O Governo alemão promete apoiar um eventual reajustamento do programa de resgate de Portugal, mas o ministro das Finanças reafirma que esse é um cenário que não está sobre a mesa. A disponibilidade de Berlim foi manifestada a Vítor Gaspar pelo seu homólogo alemão, Wolfgang Schäuble, durante uma conversa informal no início da última reunião do Eurogrupo. Gaspar agradeceu. Mais tarde, repetiu que Lisboa não tenciona pedir mais tempo ou dinheiro, embora veja com bons olhos o que considera ser um “mecanismo de seguro”.

RTP /
“O que o ministro das Finanças alemão fez foi dar a Portugal uma manifestação de simpatia e de apreço pelo sucesso dos esforços que Portugal tem realizado”, interpretou Vítor Gaspar José Sena Goulão, Lusa

As imagens da conversa em Inglês entre Wolfgang Schäuble e Vítor Gaspar foram divulgadas na noite de quinta-feira pela TVI. Na antecâmara da reunião que os ministros das Finanças da Zona Euro dedicaram ao dossier grego, o governante alemão assegurou que o Executivo de Angela Merkel estará preparado para um eventual “ajustamento do programa português”, uma vez “tomadas as grandes decisões sobre a Grécia”. “Agradecemos muito”, respondeu o ministro português. “De nada”, devolveu Schäuble.“Nem mais tempo, nem mais dinheiro”

O Governo tem mantido a versão de que não está a equacionar pedir “nem mais tempo, nem mais dinheiro”. O que não significa que alguns pressupostos macroeconómicos não possam ser reavaliados, a julgar por declarações recentes de Pedro Passos Coelho.

Em causa está a estimativa de uma contração da economia em três por cento. Assim como a própria fasquia de redução do défice das contas públicas para 4,5 por cento.

Há uma semana, em entrevista ao semanário Sol, o primeiro-ministro afirmava: “Estamos a pedir que seja analisado o cenário macroeconómico com mais realismo, de modo a evitar uma quebra de financiamento para as empresas privadas”.

A troika do Fundo Monetário Internacional e da União Europeia estará em Lisboa a partir da próxima terça-feira para conduzir a terceira avaliação do pacote de resgate financeiro.


Terminada a reunião, Vítor Gaspar viria a público para mostrar que não gostou da divulgação do diálogo e repetir a fórmula oficial do Governo de Pedro Passos Coelho: não está em cima da mesa uma flexibilização do programa de resgate financeiro acertado com o Fundo Monetário Internacional, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia.

“Em condições normais, eu não faria qualquer comentário sobre essa matéria, porque se trata de uma conversa privada que não deveria ter sido registada ou difundida. A minha interpretação do que o ministro das Finanças alemão quis dizer, quando se referiu à possibilidade de flexibilização do programa português, foi nem mais nem menos do que aquilo que foi repetido várias vezes pelos chefes de Estado e de governo da área do euro. Isto é, para países com programa, que cumpram os seus programas e que por razões que não estejam sob o seu controlo possam vir a enfrentar dificuldades no regresso aos mercados, que países nessas condições podem contar com a disponibilidade dos seus parceiros europeus para estender a assistência financeira que seja necessária nessas condições”, reagiu o ministro das Finanças.

“Isto é um apoio extremamente bem-vindo e trata-se de um mecanismo de seguro para circunstâncias que são hoje indeterminadas e indetermináveis, pelo que não correspondem de maneira nenhuma a uma situação em que uma flexibilização do programa português esteja na mesa neste momento, ou seja procurada por nossa iniciativa”, frisou Gaspar, para quem “as afirmações feitas pelo ministro das Finanças alemão não têm qualquer elemento de novidade ou de notícia”.“O país precisa de mais um ano”

O líder do PS tem uma opinião contrária. Para António José Seguro, “não se compreende” que o Governo de Passos Coelho, tendo em conta “a situação e os sacrifícios que estão a ser pedidos aos portugueses, que são imensos, e às empresas portuguesas, esteja às escondidas a conversar com o Governo alemão”. A reação do secretário-geral socialista abriu a Grande Entrevista da RTP.

“Eu tenho vindo a insistir com o senhor primeiro-ministro, nos debates quinzenais, em termos públicos, que o país precisa de mais um ano. O senhor primeiro-ministro tem dito que não e agora assistimos ao senhor ministro das Finanças a dizer que seria apreciado o prolongamento do prazo. Sinceramente, eu acho que isto é uma espécie de situação indescritível”, reprovou Seguro, que instaria o Governo a “dar explicações” ao país.

“E não é o Governo, é o primeiro-ministro. Porque o primeiro-ministro não pode dizer uma coisa no Parlamento e o seu ministro das Finanças ir dizer outra coisa a Bruxelas, falando com o ministro alemão. Não pode ser assim. Os portugueses estão a passar imensos sacrifícios e portanto nós não podemos brincar com os portugueses, nem com os sacrifícios que lhes estamos a exigir. Aquilo que eu exijo é que o primeiro-ministro venha publicamente e rapidamente esclarecer esta situação”, enfatizou.
“Conversas, leva-as o vento”
Ouvido pela Antena 1, o deputado do Bloco de Esquerda Pedro Filipe Soares lembrou, por sua vez, que o partido “sempre defendeu” que o memorando da troika “é incumprível (sic)”: “E por isso sempre defendemos que teria que existir uma renegociação do memorando e essa ideia agora aparece, no fundo, encapotada neste processo, nesta conversa entre dois ministros das Finanças”.

“É uma conversa informal e, sendo informal, não há nenhum documento que a sustente, nem nenhuma verdade política que depois não seja desdita, porque conversas como esta leva-as o vento”, concluiu o deputado bloquista.

Pelo PCP, Agostinho Lopes recordou também que os comunistas têm defendido com insistência a renegociação da dívida. Em declarações à rádio pública, o deputado fez uso da ironia: “Devemos, neste momento, ter um primeiro-ministro sem língua, dada a força com que a deve ter trincado para rejeitar, digamos assim, esta nova oferta do Governo alemão”.
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