Goa faz vinte anos com situação económica invejável
Vinte anos depois de ser declarada Estado indiano, Goa apresenta uma situação económica invejável e uma excelente rede de infra-estruturas, mas enfrenta um problema: os imigrantes, que ameaçam ser mais do que os goeses.
Depois de ter sido governada durante mais de 400 anos por Portugal, Goa foi anexada à Índia em 1961 e passou a ter o estatuto de Território de União - com autonomia limitada e administrada directamente de Nova Deli por governadores.
A tão desejada independência nunca se concretizou e a concessão do estatuto de Estado só ocorreu a 30 de Maio de 1987.
Pelo caminho, Goa ainda foi palco de uma consulta popular porque, em 1967, o governador Dayananda Bandodkar, com o apoio do governo estadual vizinho de Maharashtra, pretendeu integrar o território naquele Estado.
O líder da oposição, Jack de Sequeira, opôs-se fortemente a essa intenção e a primeira-ministra, Indira Gandhi, decidiu realizar um referendo para decidir o estatuto de Goa.
Cinquenta e quatro por cento dos votos foram contra a integração de Goa em Maharashtra, enquanto 43 por cento foram a favor, numa consulta popular que teve a participação de 81 por cento dos eleitores.
Apesar dos números, o que os goeses verdadeiramente queriam era um Estado federal com plena autonomia.
Em declarações à Agência Lusa, Francisco Monteiro, um português que saiu de Goa dois anos depois da invasão da Índia e que sempre acompanhou todo o processo, disse que "o sonho dos goeses era a independência".
"Os goeses não tiveram opção. Foram integrados na Índia à força porque o referendo não deu a opção da independência", disse, defendendo que esta teria sido "a melhor solução para os goeses".
Para Francisco Monteiro, só com a opção da independência, o referendo teria sido um processo democrático, "mas isso não foi respeitado".
Contudo, apesar de os goeses terem votado contra a integração em Maharashtra, só dez anos depois, a 30 de Maio de 1987, é que o então primeiro-ministro, Rajiv Gandhi, reconheceu o Concanim como língua oficial goesa e concedeu a Goa o estatuto de Estado, com total autonomia administrativa e financeira.
De acordo com Francisco Monteiro, como Território de União, Goa ficou pior do que quando estava sob domínio português.
"Nos primeiros tempos manteve-se a qualidade de vida, mas depois houve um retrocesso. Os indianos ficaram `de boca aberta` quando lá chegaram e encontraram infra-estruturas escolares, de saúde e administrativas bem montadas. Diziam que parecia a Europa", afirmou.
Entretanto, Goa recuperou e hoje tem uma posição económica invejável, que se deve em grande parte ao turismo.
Todas as aldeias têm electricidade, água canalizada, pelo menos uma escola de ensino secundário, rede telefónica e ligação à Internet.
O Estado de Goa regista uma esperança média de vida elevada, tem uma boa rede de serviços médicos e uma das mais altas taxas de alfabetização.
Tal como em quase todos os países, tem também aspectos negativos, que se prendem com a corrupção, a urbanização desenfreada e uma estagnação a nível do ensino, da justiça e da manutenção das vias públicas.
No entanto, o que mais preocupa actualmente os goeses é o grande número de imigrantes que vão para o Estado, atraídos pelo seu desenvolvimento económico.
De acordo com o último censo, os imigrantes em Goa representam entre 35 a 40 por cento dos cerca de meio milhão de habitantes.
Os goeses temem que, dentro de poucos anos, sejam uma minoria na sua própria terra.