Greve na Ryanair volta a deixar voos em terra

Dos 17 voos previstos da Ryanair, com partidas de Lisboa, Porto e Faro, onze foram foram cancelados até às 9h30 desta quarta-feira. Os tripulantes de cabine das bases portuguesas da companhia irlandesa cumprem esta quarta-feira o terceiro dia de greve.

Cristina Sambado - RTP /
Os tripulantes de cabine das bases portuguesas da Ryanair cumprem esta quarta-feira o terceiro e último de três dias de greve não consecutivos para reivindicar a aplicação da legislação laboral do país Rafael Marchante - Reuters

Em Lisboa, no aeroporto Humberto Delgado, estavam previstas até às 9h30 quatro partidas e apenas duas se realizaram. Um voo com partida às 6h30, com destino a Hamburgo, e outro com destino ao Porto foram cancelados. Um outro voo para Londres, cuja partida estava prevista para as 6h30, foi adiado para as 13h00.

No aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, dos sete voos previstos cinco foram cancelados. Os voos para Roma, Lisboa, Barcelona, Paris e Eindhoven não se realizaram. No entanto, dos voos cancelados, dois descolaram para ir buscar tripulação a outras bases da companhia aérea de baixo custo.

No aeroporto de Faro, dos seis voos previstos quatro foram cancelados até às 9h30.

O Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil acusa a companhia de, uma vez mais, ir buscar tripulantes a outras bases.

“Os aviões estacionados em Portugal saíram sem passageiros outra vez e foram a outras bases da Ryanair buscar tripulantes para voltarem com algumas horas de atraso e, mais uma vez, haver substituição dos tripulantes em greve”, acusou Luciana Passos, presidente do Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil.
Último dia de greve
Os tripulantes de cabine das bases portuguesas da Ryanair cumprem esta quarta-feira o terceiro e último de três dias de greve não consecutivos para reivindicar a aplicação da legislação laboral do país.

Na passada quinta-feira, primeiro dia do protesto, foram cancelados 13 voos e alguns aviões partiram com várias horas de atraso.

No domingo, o segundo dia de paralisação, dos 49 voos programados 27 foram cancelados. Dos 22 realizados, 15 foram com tripulação portuguesa e sete com tripulantes estrangeiros.
Os motivos
Os tripulantes das bases portuguesas acusam a Ryanair de falta de respeito pelos direitos dos trabalhadores.

A empresa é acusada, em concreto, de não cumprir o Código do Trabalho.

Os tripulantes afirmam também que a transportadora não cumpre o direito à parentalidade e não garante o ordenado mínimo. Queixam-se ainda de processos disciplinares por baixas médicas ou vendas a bordo abaixo das metas. Greve europeia em cima da mesa
Os alegados problemas não serão apenas nas bases portuguesas da Ryanair e já há conversações entre sindicatos para uma eventual greve à escala europeia.

“Não sei quando, não sei ainda em que moldes. Os sindicatos reunir-se-ão e será uma decisão coletiva a ser tomada com todo o cuidado. Porque não é uma decisão fácil. Não é uma decisão que nós pretendamos tomar. Mas há que pôr um ponto final”, afirmou Luciana Passo, presidente do Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil, no Bom Dia Portugal .

Segundo a sindicalista, “fizemos, para já, aquilo que foi muitíssimo bom, que foi chamar a atenção para os problemas de centenas e centenas de tripulantes de cabine da Ryanair”.
Sindicato fala em perseguições
Na entrevista à RTP, Luciana Passo fala em perseguições por parte da empresa aos tripulantes colocados em outras bases da companhia aérea que se recusam a substituir os grevistas.

“Ainda ontem circulou e foi até enviado aos órgãos de comunicação social uma carta que um tripulante da Ryanair da base em Eindhoven (Holanda) recebeu, dizendo que era uma nota de culpa final e que nos próximos doze meses não teria oportunidade de progressão”, afirmou a presidente do Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil.

Segundo a sindicalista, a Ryanair “não despediu” o tripulante em causa, mas “ameaçou”. “Portanto há perseguição sim”.

Em relação a outros casos de perseguição por parte da companhia aérea irlandesa, Luciana Passo frisa que “estes casos não são diferentes dos anteriores“.

“Porque é prática da Ryanair a perseguição e a coação. Ou se faz como a Ryanair quer e diz ou então as pessoas são dispensadas ou são perseguidas de alguma maneira”, acusou.

A sindicalista apresentou também um caso concreto de uma violação do Código do Trabalho por parte da Ryanair em relação às licenças parentais.

“Se uma tripulante tiver um filho tem direito a dias de licença parental, o pai também tem direito a licença parental. Essa licença parental para a Ryanair é o mínimo possível e não o mínimo de lei”, afirmou.

Segundo a sindicalista, “já aconteceu e a portugueses a trabalharem em Portugal e que descontam para a Segurança Social portuguesa. É que a meio dessa licença ou antes do término, a Ryanair convoca-os para fazerem voos, porque já não podem prescindir deles”.

“A Segurança Social está a pagar uma licença, o tripulante tem direito legal à licença, mas ela não é cumprida porque a Ryanair não deixa, porque precisa, porque se não pode ser dispensado. Isso quer dizer que o tripulante levado pela Ryanair até pode estar a enganar a Segurança Social portuguesa”, rematou.
Ryanair desmente sanções
A empresa irlandesa enviou na terça-feira um memorando aos trabalhadores de bases fora de Portugal em que garante apoios aos funcionários e descarta sanções, com ações legais, contra os tripulantes que não substituam os grevistas em Portugal.

"Não devem estar preocupados de maneira alguma sobre as falsas alegações [de sanções]: a empresa apoia os nossos funcionários a 100%. Há risco zero que algum tripulante perca a sua licença de voo ou identificação do aeroporto", lê-se no memorando assinado por Andrea Doolan, responsável pelas operações de planeamento de voos.

No mesmo texto, a Ryanair fala em “numerosas falsas alegações que circulam nas redes socias nos últimos dias, reivindicando que ações legais vão ser tomadas contra tripulantes de bases não portuguesas que operam voos pata Portugal”.

“Se abandonar o seu dever por recusa de operar voos como ordenado pela empresa será considerada como falta grave no âmbito do processo disciplinar, para a qual a sanção habitual é o despedimento”, acrescenta o memorando.

A Ryanair refere ainda que devem ser cumpridas as “obrigações contratuais e que não se podem escolher os voos para operar”.

A empresa admitiu ter recorrido a voluntários e a tripulação estrangeira durantes os três dias, não consecutivos de greve, nas bases portuguesas da Ryanair.
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