Grupo de trabalho da Universidade de Coimbra sugere dragagem regular do rio Mondego
O grupo de trabalho da Universidade de Coimbra (UC) que analisou as cheias em fevereiro no Mondego sugeriu a dragagem regular do rio entre as pontes da Rainha Santa e o Açude.
A sugestão consta das conclusões preliminares do grupo de trabalho, liderado pelo antigo reitor da UC Fernando Seabra Santos, que analisou as recentes cheias do rio Mondego, e que foram apresentadas hoje durante o colóquio "As Cheias do Mondego", que decorreu no Departamento de Engenharia Civil da UC.
"Embora esta questão complexa careça de mais dados de partida e de mais estudo, parece avisado sugerir, em primeira análise, uma dragagem regular do rio entre as Pontes da Rainha Santa e o Açude (pe 200.000 m3 [metros cúbicos] de três em três anos) e a sua deposição nos troços mais erodidos, a jusante do Açude, tendo particular atenção à eventual necessidade de reposição de areia na base dos pilares das pontes", lê-se num documento a que a agência Lusa teve acesso, e que está organizado em perguntas e respostas.
A proposta foi deixada em resposta à questão se do ponto de vista sedimentar o rio está em equilíbrio, em que o grupo de trabalho disse que o transporte sedimentar "é uma das áreas menos bem cobertas" pelo estudo, dada a enorme escassez de dados naturais disponíveis.
À pergunta se é criticável a decisão de construir o Parque Verde e a Praça da Canção em leito de cheia, o grupo de trabalho salientou que é sabido que as instalações estavam a ser construídas num leito de cheia passível de inundação e que a decisão "pode entender-se no contexto de uma avaliação das vantagens e dos inconvenientes" associados.
"A interrupção das atividades num período de cerca de 1% do tempo, ainda por cima em época baixa, parece-me um preço razoável a pagar pela possibilidade de utilizar um espaço de excecional qualidade em todo o restante período", argumentou-se.
Para levar a sério o problema, o grupo de trabalho defendeu ser preciso estabelecer uma estratégia de intervenção e prioridades, notando que as entidades e organismos responsáveis pela infraestrutura, à semelhança de 2001, 2016 e 2018, responderam "debaixo do fogo da opinião pública, nomearam comissões cujos relatórios vão arrumar numa prateleira, atiraram alguns milhões para reparar os estragos imediatos mais visíveis, passaram com leviandade ao lado de uma resposta estrutural que a gravidade do problema exige e preparam-se agora para festejar o sucesso da sua intervenção".
"Não é possível fazer tudo ao mesmo tempo, mas os anos de que dispomos até que uma nova grande cheia nos venha afetar dão-nos, em princípio, o tempo necessário para fazer o mais urgente", concluíram.
O grupo de trabalho integra os académicos Alfeu Sá Marques, Cidália Fonte, Isabel Pedroso de Lima, Nuno Simões, Paulo da Venda, Ricardo Martins e Rita Fernandes de Carvalho.
A sessão de abertura do colóquio contou com a participação dos vice-reitores da UC para a Cultura, Comunicação e Ciência Aberta, Delfim Leão, e para o Património, Edificado e Turismo, Alfredo Dias.
Delfim Leão disse que as conclusões desta análise serão publicadas em livro, "em setembro/outubro", para "dar aos decisores políticos, mas também à população em geral, informação trabalhada, densificada do ponto vista científico".