Herdade dos Machados quer recuperar tempos áureos com olival de espanhóis
Beja, 16 Mar (Lusa) - Uma das melhores e maiores explorações agro-pecuárias nacionais antes do 25 de Abril, a Herdade dos Machados, no concelho de Moura, deposita hoje nos espanhóis a esperança de regressar aos tempos áureos "ceifados" pela chamada Reforma Agrária.
"A Reforma Agrária já não existe, mas pronto, existe cá em casa, continuamos a ser vítimas dela. Não há explicação para, quase 30 anos depois, isto não estar resolvido", desabafa à agência Lusa Jorge Tavares da Costa, administrador da Casa Agrícola Santos Jorge, que explora a herdade.
Com uma área total perto dos 6.100 hectares, a herdade já foi "revolucionária" no panorama agro-pecuário em Portugal, mas a "Revolução dos Cravos", que conduziu à sua ocupação, e a Reforma Agrária fizeram com que fosse dividida em inúmeras parcelas atribuídas a rendeiros.
Agora, um grupo económico espanhol, o Grupo Áncora, que detém em Portugal a sociedade Franlabora, adquiriu metade da Casa Agrícola Santos Jorge e pretende plantar o maior olival do mundo em quase 5.000 hectares, desde que o Estado devolva os terrenos aos antigos proprietários.
"O êxito deste mega projecto, que tem interesse local e nacional, porque pode ajudar o país a suprir as carências na área do azeite e vai empregar muita gente, depende do apoio governamental para resolver este imbróglio", afiança.
A Herdade dos Machados era uma propriedade familiar e, após a morte do proprietário, os herdeiros constituíram, em 1967, a Casa Agrícola Santos Jorge para a explorar.
"A empresa contratou com mais pessoal, adquiriu tractores e ceifeiras debulhadoras, tinha vinho, azeite, gado e culturas forrageiras, lagar, adega e destilaria de aguardente para transformar os figos", recorda, sublinhando que a "pequena aldeia" contava ainda com posto médico e habitações para os trabalhadores.
A empresa "à séria", que até teve três lojas em Lisboa para venda exclusiva dos seus produtos, desenvolveu-se até 1975, quando, nos anos quentes que se seguiram ao 25 de Abril, foi ocupada, seguindo-se uma intervenção estatal "para acalmar os ânimos" que durou até 1979, conta.
Após esforços dos proprietários, o Governo procedeu à desintervenção da empresa e devolveu, primeiro, as lojas de Lisboa e, em Abril de 1980, o então primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro (AD) fez "uma reforma agrária à sua maneira" na herdade, repartindo-a em "mais de 300 parcelas" que entregou a "cerca de uma centena de pessoas".
"Alguns eram trabalhadores da empresa, outros vieram de fora, sem ligação à herdade, e algumas parcelas até foram para funcionários públicos", relata Jorge Tavares da Costa, acrescentando que os antigos proprietários também receberam uma área de 499 hectares, em duas fracções, voltando à gestão da herdade.
Ao longo dos anos seguintes, os proprietários recuperaram mais terra, intercalada, aqui e ali, por parcelas de rendeiros, mas o administrador realça que, pela "lei da Reforma Agrária", a Casa Agrícola tem direito a "outros 660 hectares", área que o então ministro da Agricultura Sevinate Pinto (PSD/CDS-PP) tentou devolver em 2003.
"Os contratos com esses agricultores foram rescindidos, mas os rendeiros puseram o Estado em tribunal [Administrativo e Fiscal de Beja] e o processo está parado há mais de três anos", explica.
Actualmente, a área dos titulares da herdade e da Casa Agrícola ascende aos 2.800 hectares, mas só 1.700 é que são explorados directamente, pois, os outros "foram devolvidos pelo Estado com a condição de manter os contratos com os rendeiros".
Perante a entrada do grupo espanhol no capital da Casa Agrícola, a futura administração vai encetar negociações com o Ministério da Agricultura para recuperar a restante área, mas Jorge Tavares da Costa avisa: "O olival só poderá ser plantado se a herdade estiver toda na posse privada".
"Vamos negociar com o Ministério e com os rendeiros, muitos dos quais subarrendaram as parcelas ou têm-nas ao abandono. Espero que tudo seja resolvido nos próximos meses para voltar a aproveitar as potencialidades desta terra magnífica que é uma pena estar toda retalhada", afirma.