ICBC Brasil anuncia a sua primeira transação transfronteiriça em yuan
A sucursal no Brasil do Banco Industrial e Comercial da China (ICBC) disse hoje ter processado com sucesso a primeira transação transfronteiriça em moeda chinesa, como parte dos esforços para incrementar o uso do yuan no comércio bilateral.
"O ICBC Brasil apoiou ambas as partes na liquidação direta em moeda chinesa", afirmou o banco, em comunicado. "Isto demonstrou vantagens significativas, em termos de eficiência de compensação, custos com o câmbio e segurança dos fluxos de fundos e informações", lê-se na mesma nota.
Em fevereiro, os bancos centrais do Brasil e da China assinaram um memorando de entendimento para o estabelecimento de acordos de compensação do yuan, como parte dos esforços de Pequim para internacionalizar a moeda chinesa. O ICBC Brasil foi designado como o banco de compensação do yuan no país sul-americano.
A sucursal do ICBC no Brasil disse que vai continuar a promover ativamente as suas vantagens como banco de compensação do yuan e a fornecer serviços de liquidação internacional "convenientes, eficientes e seguros" para as empresas em ambos os países.
"A implementação bem-sucedida desta transação indica que as empresas chinesas e brasileiras têm agora mais opções para o comércio [bilateral], o que ajudará a aumentar a proporção do yuan no comércio e investimento China - Brasil", observou.
A China tem tentado internacionalizar o yuan desde 2009, visando reduzir a dependência do dólar em acordos comerciais e de investimento e desafiar o papel da divisa norte-americana como a principal moeda de reserva do mundo.
Esta questão tornou-se mais urgente num período de fricções geopolíticas, que resultaram na fragmentação das cadeias de produção, visando enfraquecer o papel central da China, e em sanções contra Moscovo, na sequência da invasão da Ucrânia.
O dólar é utilizado em 84,3% das trocas comerciais a nível global, segundo dados recentes divulgados pelo jornal britânico Financial Times. Mas a participação do yuan mais do que duplicou desde a invasão da Ucrânia, de menos de 2% para 4,5%, refletindo o maior uso da moeda chinesa no comércio com a Rússia.
O Presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, que está a realizar uma visita de dois dias à China, atacou, na quinta-feira, em Xangai, o domínio do dólar norte-americano como moeda de reserva mundial e apelou ao uso de outras divisas na relação comercial entre Brasil e China.
"Todos os dias me pergunto por que motivo os países estão obrigados a fazer o seu comércio em dólar", afirmou o chefe de Estado brasileiro, na sede do Novo Banco de Desenvolvimento, criado pelo BRICS, o bloco de economias emergentes que junta Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.
"Nós precisamos de ter uma moeda que dê aos países um pouco mais de tranquilidade", acrescentou.
Em entrevista à Lusa, em dezembro, Michael Pettis, professor de teoria financeira na Faculdade de Gestão Guanghua, da Universidade de Pequim, afirmou, porém, que para o yuan conseguir ameaçar o estatuto do dólar como moeda de reserva mundial a China teria que executar reformas no sistema financeiro e monetário que são incompatíveis com o seu modelo de governação.
A "rigidez" do sistema financeiro da China, em contraste com o mercado de capitais "aberto" dos Estados Unidos, "impede o yuan de assumir maior predominância como moeda de reserva", explicou.
"A China teria que abdicar do controlo sobre as contas correntes e de capital" e "aceitar um sistema de governação no qual as decisões de uma ampla gama de autoridades estariam sujeitas a um processo legal transparente e previsível", para que o yuan pudesse, "pelo menos parcialmente", ameaçar a posição do dólar, afirmou o académico, que vive no país asiático há duas décadas.